[Crítica] Vampiro 40 Graus

vampiro-40 grausOrgias, luxúria, sombras e tons coloridos escrachados: esses são os principais elementos que servem de base para a trajetória em longa-metragem de Vlak, personagem do veterano cantor Fausto Fawcett, que contribuiu também para o roteiro junto a Henrique Tavares e João Paulo Reis.

Vampiro 40 Graus, filme de Marcelo Santiago inspirado no livro de Lucia Chataigner, é movido pela narração de Vlak e insights pouco didáticos sobre o cenário social do Rio de Janeiro em convivência com as criaturas vampirescas, com edição moderna como a principal marca.

Vlak retorna da Transilvânia e decide deixar de lado o posto de chefe do submundo da cidade e arrancar seus caninos, o que o faz perder a memória. Nos pouco mais de 70 minutos de fita, são mostrados outros mortos-vivos, misturando uma realidade semelhante a de True Blood em relação ao ingresso desses seres fantásticos no mundo, junto ao surto do uso de crack, inventando-se inclusive uma droga chamada pó de vampiro, baseada na droga de fumo.

Os personagens são modernos, estilísticos e pautados primeiro pelo estilo despretensioso, depois pela extrema sensualidade provinda da Cidade Maravilhosa, elevando o uso da libido como fonte de energia que mantém a Guanabara ativa. Este ideário mistura elementos tipicamente teatrais e burlescos com a estética, já conhecida em músicas e livros de Fawcett, de uma Copacabana libertina e cyberpunk. As referências a esse cenário são muitas, desde a carioquice carregada de gírias das pornochanchadas até o uso do preto como costume de vestimenta retirado tanto de Vampiro a Máscara, Matrix e, de elementos góticos comuns ao sub-gênero desde Bela Lugosi em Drácula a demais filmes de monstros da Universal.

Vampiro 40 Graus traz experimentalismos dificilmente empregados no cinema nacional do gênero, poetizando o cotidiano e fala comum do povo. Algumas vezes soam risíveis, mas que fazem sentido ao espectador, mesmo diante dos muitos elementos indistintos juntos na formula básica do filme. Falta um equilíbrio na condução de tantos conceitos diferenciados em um espaço temporal tão curto, mas há de se louvarem a coragem e distinção tanto de Santiago quanto de Fawcett enquanto realizadores de uma obra tão verborrágica e esteticamente atual, sem deixar de soar natural e harmoniosa, como muitos outros primos seus. Certamente este não é um filme genérico.

O longa consegue reunir a malemolência tipicamente carioca com elementos neons ao invés do gótico, além de um sexploitation provocante mas que não faz uso de nus. Os momentos finais reservam uma surpresa pontual, atrelando o filme à situação da cidade-sede das Olimpíadas 2016, uma ironia pontual tanto ao caos urbano em meio ao sonho olímpico quanto aos possíveis futuros candidatos a prefeito do Rio de Janeiro. Vampiro 40 Graus está em um nível de escracho e denúncia poucas vezes visto na cena de terror atual.