[Crítica] Vidas Amargas

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O distanciamento criado pela temporalidade de um filme antigo produz uma apreciação diferenciada. O costume ao estilo de narrativa, espaço, composição de personagens contemporâneos, indiretamente potencializa o efeito de estranhamento. Não estranhe se, ao assistir um filme antigo, você permanecer mais reflexivo do que comumente.

As tramas antigas não eram tão explícitas ou não necessitavam de razões extensas sobre motivações. Enredos eram contados de maneira inteligente, em que o público inferia situações pela funcionalidade da fotografia, do ângulo escolhido para filmagem.

Longe de afirmar um detrimento da indústria cinematográfica – a reflexão caberia em outro espaço – é necessário conceituar que os tempos são diferentes. Com eles, a maneira de apresentar uma história para o público também se tornou mais rápida, eficiente e, assim, mais pasteurizada.

Vidas Amargas é uma daquelas produções erigidas em uma tríade inesquecível. Interpretação de James Dean – primeira com destaque e também a primeira indicação póstuma ao Oscar. A direção precisa e sempre sensacional de Elia Kazan. E a obra de John Steinbeck, na qual se baseia.

A referência bíblica da produção se perde no título brasileiro, mas está presente no original. Ao leste do Éden foi o local em que viveu Caim, após discussão com o criador. Não à toa a referência é explícita. Mesmo inserido no contexto americano, em época de guerra e recuo econômico, o embate central da trama se desenvolve entre a família Trask, formada por um pai e seus dois filhos.

James Dean interpreta Cal Trask, elemento rebelde da família. Ele é o errante que deseja a demonstração do amor paterno quando este tem olhos apenas para Aaron, o cidadão modelo, trabalhador e noivo. É a amargura do não reconhecimento que permeará a construção de toda a trama.

Ao contrário do livro de Steinbeck, que perpassa gerações de duas famílias da guerra civil à Primeira Guerra Mundial, o filme de Kazan centra-se apenas em um dos embates: a bíblica briga entre pais e filhos. A exclusão de boa parte da obra funciona para gerar maior dramaticidade e demonstra bem uma época em que uma adaptação não necessariamente significava contar toda a história original.

Kazan tem domínio do elemento dramático. É preciso nos pequenos detalhes que fazem do elemento visual um primor espantoso. Evidencia sombras em cenas dúbias, retrata com ângulos obtusos o equilíbrio instável da relação paterna e utiliza o scope para cenas em amplitude. Sequências belíssimas da cidade do Vale de Salinas, onde se ambienta a história. Nada é estabelecido por acaso, mas gerado em uma teia de inferências que enriquecem a experiência do espectador.

O talento do jovem novato James Dean é impressionante. Tem nas mãos a personagem mais densa da história e foi capaz de realizá-la de maneira crível com a dramaticidade fatalista da trama. Mesmo que se tente fugir de comparações, é notável que a maneira de se interpretar um papel situava-se em outro patamar. Mais explícita, centrada em outras nuances se comparada à maneira contemporânea, com uma atmosfera que ampliava a potência do drama. Suas três atuações perpetuavam começo, meio e fim de um rebelde que, não por acaso, tornou-se uma lenda e um sinônimo para o ator que morre em seu auge, muitas vezes sem conhecê-lo.

Ecoando silêncio no espectador, Vidas Amargas é uma experiência aterradora. Uma necessária jornada devastadora.