[Crítica] Expresso do Amanhã

Expresso do Amanhã

Os filmes sobre futuros pós-apocalípticos já constituem um gênero próprio no cinema. Por inúmeras razões diferentes, o planeta Terra já foi destruído e deu origem a diversas histórias sobre seus sobreviventes. Baseado na graphic novel francesa Le Transperceneige – escrita por Jacques Lob, Benjamin Legrand e Jean-Marc Rochette -, Expresso do Amanhã é o mais inventivo e surreal exemplar surgido nos últimos tempos.

Dirigido pelo coreano Bong Joon-ho, responsável pelo maravilhoso O Hospedeiro, o filme tem como ponto de partida uma catástrofe ambiental que ocorre após um experimento fracassado que tinha como finalidade acabar com o aquecimento global e acabou dizimando praticamente toda a vida do planeta. Os poucos sobreviventes do evento cataclísmico vivem a bordo do Snowpiercer, um trem que roda todo o planeta em ciclos de 365 dias. Dentro da composição, há um desigual sistema de classes sociais em cada vagão. Porém, a classe mais pobre, que habita os vagões de trás, não está nada satisfeita com as condições que lhes são impostas e prepara uma revolução.

Geralmente, existe uma certa dificuldade em unir estilo e conteúdo. Bong Joon-ho consegue com maestria essa união. O coreano é um craque e alguns diretores hollywoodianos deveriam aprender com ele. Na sequência da batalha com os encapuzados de machadinha, Joon-ho faz um magistral uso da câmera lenta sem em nenhum momento diluir a brutalidade do momento. Minutos depois, filma de maneira crua o prosseguimento da luta, usando o ponto de vista dos homens de capuz e seus óculos de visão noturna. Mais ainda, o diretor consegue transformar o trem em um personagem do filme, em vez de fazer dele um simples cenário. Outro ponto positivo é que em nenhum momento as emoções dos personagens são negligenciadas e nenhum close é gratuito. Tudo isso é filmado em um constante clima claustrofóbico.

A cenografia do filme é muito interessante. Cada vagão tem uma “personalidade própria”, mesmo os mais simples que aparecem logo no início. Alguns são muito curiosos e belos, como o “vagão aquário” e o “vagão horta”. Entretanto, aquele que representa uma escola é especialmente perturbador. Os mais abastados são dotados de luxo, porém retratam a decadência da alta sociedade, numa clara analogia ao mundo real.

O elenco do filme também é ótimo. Chris Evans faz o líder hesitante da revolução, em uma interpretação contida, mas marcante. Destaque para a cena em que ele expõe o que acontecia no trem no início da viagem. O ator faz um monólogo repleto de emoção sem cair na pieguice ou na canastrice. O veterano John Hurt interpreta com a habitual competência um ancião habitante do trem que serve como uma espécie de líder dos mais pobres e mentor de Evans. Song Kang-ho interpreta o homem que criou o sistema de portas do trem e é mantido prisioneiro. Sua atuação é completamente alucinada, já que seu personagem se viciou em uma droga chamada Kronol. Porém, quando é necessário que o tom seja mais dramático, Song não decepciona. Sua filha Yona, também viciada, é feita por Go Ah-sung em uma atuação que se assemelha a de Kang-ho. Ed Harris e Jamie Bell, respectivamente o idealizador da locomotiva e o fiel escudeiro do protagonista, entregam interpretações competentes, ainda que diferentes. Enquanto o primeiro consegue expressar bem a megalomania de seu personagem, o segundo demonstra muito bem toda a inquietação e a melancolia de seu papel, capaz de sacrificar tudo por seu melhor amigo, o protagonista (Chris Evans). Mas, o maior destaque é Tilda Swinton. Irreconhecível como uma espécie de chefe de segurança do trem, sua interpretação caricata ajuda a ressaltar o quão doentia a personagem é.

Com um roteiro interessante e surreal executado com maestria por seu diretor, Expresso do Amanhã talvez seja o mais criativo filme de temática pós-apocalíptica que apareceu no cinema nos últimos tempos. Ficção científica de primeiríssima qualidade que merece todos os elogios que recebeu.