Resenha | Memória do Fogo – Vol. 3: O Século do Vento

O mundo não acabou! Continuou, tipo pedra roliça ocupando dois planos diferentes, para cima, para baixo… Talvez os que viram e lembram-se da virada dos anos 2000 atinam-se ao sentimento de mudança e revolução coletiva que um momento como esse pode causar. Novos ventos para as mesmas cortinas de sempre. A tecnologia não mudou o ser humano, e a parte latina das Américas continua a ser o mesmo ‘arquipélago de pátrias’ submetidas a um poder maior. Chove para baixo, e a cultura latino-americana tenta fazer da chuva uma garoa que não nos molha demais. Mas é difícil, já que os irmãos Wright tiveram mais publicidade que Santos Dumont para serem eleitos os “verdadeiros” pais da aviação. Eis um livro desbravador das verdades de ontem e que não tem medo de ser honesto, e que faz esse ontem parecer o hoje, dada a delícia de uma prosa que ostenta, em ágeis trezentas páginas, uma pura condensação histórica.

O século XX foi um cenário tanto para incríveis ineditismos quanto para continuações de todo modo, e o escritor Eduardo Galeano teve todo o cuidado do mundo para expressar isso em forma de relatos que formam um mural de eventos tão determinantes, quanto fascinantes para qualquer curioso incurável sobre as engrenagens ancestrais de quem fez e faz o mundo. Presos na nossa ainda recente memória, os resquícios da ditadura militar no Brasil ainda não sumiram por completo, junto da poeira de Hiroshima, lá longe, e são nessas páginas que nós podemos sentir os porquês de tudo isso. Como o foco é a nossa área, cheia de sotaques espanhóis e portugueses, tudo parece mais resumido, ou melhor, encapsulado em um único continente que ao longo do tempo, foi sendo ensinado, desde sua colonização europeia, a se sentir impotente, rebaixado, e a alto degradar os seus próprios valores únicos, em contraponto da velha nobreza que vem lá de cima.

E é claro que a partir da década de 40, com o grande desenvolver e implantação da segunda guerra, o episódio merece um parágrafo a parte com a visão sul-americana dando o tom não das causas e das consequências do conflito, mas do que nutriu grande parte do arsenal bélico dos EUA. Servimos aos irmãos do norte como a mãe que cede utensílios ao filho que vai morar sozinho. Neste caso, mandando até peões (soldados), comida e matéria prima barata, e valiosa. Pagamos parte da conta do espetáculo mundial pelo poder, mas não necessariamente rachamos a conta, certo? Nossa consideração por isso vem justamente pelo Cinema, pelos papéis amigáveis e engraçadinhos que os latinos faziam nas aventuras norte-americanas em Hollywood, e foi essa a real gratidão deles com a gente: Latinos são nossos amigos, e os japoneses, os amarelos, o próprio diabo a ser combatido.

Hollywood assim começou a testar seu imenso soft-power, vendendo ilusões para desviar o inferno que os jornais denunciavam, até culminar, através da maioria da sua publicidade tipo exportação, nos blockbusters que nos divertem, de Tubarão aos filmes da Marvel, reforçando os valores, os ideais e as perspectivas socioculturais deles. Tudo foi pensado, e a América Latina sempre foi o mais dócil dos quintais. Os primos pobres e que ainda assim merecem mais atenção que os países africanos que nada aos primos ricos nunca tiveram a oferecer, além de alguns diamantes sujos de lama, é claro, e a certeza de serem animais inferiores para os políticos, ditadores aqui e ali, e os midiáticos homens brancos que excitaram (e excitam) o ódio para manter sua soberania, de geração em geração, envernizando tudo para que os tempos e as novas tecnologias não mudem seus custosos poderes.

O Século do Vento ilustra cem anos aonde os problemas mais profundos da humanidade, como a intolerância por exemplo, expandiram sua escala ao invés de começarem a sumir, rumo a um novo milênio. Longe de típicos pessimismos, ou de um realismo duro e cruel, Galeano continua a prática que já refinou nos dois outros volumes dessa trilogia Memória do Fogo, que como já foi citado anteriormente na crítica de As Caras e as Máscaras, são memórias cujo ardor é tão enraizado e marcante que não nos deixa esquecê-las. Galeano sabia disso, e num trabalho hercúleo, compilou bases documentadas e fez juntar inúmeros trechos imprescindíveis sobre a história que, se tanto moldou o mundo, também afetou por inteiro as trajetórias de uma América sempre eclipsada e subestimada pelo país que se auto intitula a América inteira, e com letra maiúscula.

Havia começado então o século do poder do Mickey Mouse sobre o Zé Carioca, o Goku, e qualquer outro símbolo estrangeiro. Eles são o espetáculo, e todos devem assistir, contudo, nem tudo entre 1900 e 1999 foram Eles. Entre grandes personalidades que adiantaram e atrasaram o mundo, e as invasões de território, entre índios contra índios e países versus grandes nações que, ao invés de se juntarem para exterminar a fome e a guerra nesse globo ocupado por nossas lutas, o instinto de ambição e pura ganância dos seus comandantes engravatados fez criar suas bombas e leis internacionais, uma nova lógica se formou. A escravidão dos outros séculos persistiu de modo silencioso, agora, feito o encosto fantasmagórico que é, insuflando o brilhante discurso de Mártir Luther King no gramado que fez de palanque, enquanto no Brasil outro negro, Pelé, brilhava no palanque que fez de gramado, e também entrou para história das coisas.

Com O Século do Vento, que termina já na véspera da era (em construção) da pós-verdade e das tecnologias onipresentes, Galeano faz por merecer todos os louros de quaisquer leitores(as) por duas razões tão óbvias, quanto inquestionáveis: Seu foco em resumir um século inteiro sem perder o peso dos principais esplendores e vicissitudes do mesmo, e por não apelar nessa odisseia pelo tempo/espaço para a facilidade de um lamento, ou de um sentimentalismo fácil diante da crise de 1929, do holocausto, da chegada à Lua e de outros marcos inerentes aos idos que emoldura, páginas a fio e que chegam a alojar, brilhantemente bem, duas décadas a cabo de dois parágrafos rápidos, mas suficientes, a tanto. Seu interesse, perfeitamente ritmado numa leitura de um fôlego só, é estimular através da imparcialidade, feito um bom e velho jornalista prosaico, o espírito desbravador dos olhos que leem sua fabulosa trilogia literária; genuinamente épica.

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