Resenha | Minority Report – A Nova Lei – Philip K. Dick

Minority Report – A Nova Lei – Philip K. Dick - book

Para quem não conhece, Dick é um dos autores mais cultuados de Ficção Científica dos nossos tempos, sendo quase sempre citado junto com outros grandes nomes do gênero, como Asimov ou Arthur C. Clark. E se você ainda não reconheceu seu nome no meio literário, com certeza ouviu falar dos filmes que algumas obras de Dick inspiraram.

São elas: Blade Runner: O Caçador de Andróides (adaptado de “Do Androids Dream of Eletrical Sheep?”), O Vingador do Futuro (do conto “We Can Remember It for You Wholesale”), O Pagamento (baseado em “Paycheck”), Screamers: Assassinos Cibernéticos (conto “Second Variety”), O Impostor (“Impostor”), O Homem Duplo (“A Scanner Darkly”) e Minority Report: A Nova Lei (“Minority Report”). Há algumas outras adaptações para o cinema, mas essas são as que se tornaram mais conhecidas do grande público.

Para o bem ou para o mal, logo de cara fica fácil afirmar que Dick é o autor de FC que mais tem adaptações para o cinema. Isso com certeza representa um pouco da influência do autor no gênero. E é na aposta deste reconhecimento que a editora Record lança esta coleção de contos logo depois do lançamento do blockbuster de Spielberg, com título homônimo. De todos os contos inspirados em filmes que citei, nesta coleção fica faltando apenas ‘O Homem Duplo’, ‘O Pagamento’ e o que inspirou ‘Blade Runner‘. Temos aqui todo o resto e mais alguns, totalizando dez contos.

Confesso que peguei para ler este livro com uma expectativa muito grande, afinal sou fã de Ficção Científica, apesar de nunca ter lido nada do autor (com exceção de alguns contos “soltos por aí”). Talvez essa expectativa tenha influenciado no modo como recebi a leitura, mas se isso de fato aconteceu, representa apenas uma parte da minha análise, a outra parte são os contos em si.

O livro abre com Minority Report, que é um conto muito bem estruturado. Ele basicamente levanta as mesmas questões que Spielberg levou para o cinema, mesmo sendo bem diferente da adaptação em muitos aspectos.

O ponto principal a ser discutido nele é sobre a moral do sistema de prevenção de crimes descrito em Minority Report. Basicamente a trama se desenrola em um futuro próximo onde há um sistema na polícia que prevê a concretização de crimes com até uma semana de antecedência, a polícia então prende o suspeito (ou seria culpado?) antes do mesmo exercer o ato e a pergunta aqui é: Pode-se condenar alguém por um ato que ela ainda (?) não cometeu, ou em muitos casos, nem sabia que iria cometer? E se ao invés de prender os suspeitos, por que simplesmente não avisamos os mesmos de suas ações futuras, talvez assim alterando o resultado das previsões?

Essas são as questões levantadas pelo conto e creio que é uma ótima escolha ele abrir o livro.

Depois dele, bem, temos alguns contos não tão representativos filosoficamente falando, que é algo comum no gênero. Outros simplesmente não têm uma construção de personagens muito boa (como no conto ‘O Que Dizem os Mortos’) ou mesmo de enredo e/ou curva dramática (como em ‘Ah, Ser um Bolho!’). Neles, o enredo não te prende e a conclusão termina por ser uma grande decepção. Eu compreendo que em contos não se tem mesmo muito ‘tempo’ para se construir um bom personagem, mas quando eles passam a agir de forma quase que totalmente aleatória, torna-se algo de difícil aceitação para o leitor mais atento.

Não estou dizendo que Dick não merece a fama que tem como grande nome de FC, pois como mencionei, esta é a primeira obra completa que li dele, mas realmente creio que a seleção dos contos aqui não foi das melhores. Ao meu ver, dos dez contos do livro, gostei realmente de apenas três, são eles: ‘Minority Report‘, ‘A Formiga Elétrica’ e ‘Impostor’. Esses três trazem elementos interessantíssimos para contos de FC. Elementos de reflexão, questionamentos e por último mas não menos importante, desfechos surpreendentes e/ou contundentes.

Quero chamar a atenção para ‘A Formiga Elétrica’, por levantar questões bem interessantes. Qual não foi o meu prazer ao começar a ler este conto, e lembrar que eu já o conhecia de uma coletânea de Ficção Científica intitulada ‘Histórias de Robôs’. Como mencionei acima, eu já havia lido alguns contos de Dick antes e este em especial ficou gravado na minha mente. Ele conta a história de um empresário bem sucedido que após um acidente descobre que ele na verdade é uma ‘formiga elétrica’, uma gíria para robôs humanóides.

O nosso personagem principal, devido a falsos implantes de memória, não tinha a menor suspeita de que ele não era humano. Mas esta revelação dada logo na terceira página do conto torna-se secundária quando ele descobre dentro de seu peito cheio engrenagens algo que é responsável por toda a sua percepção de realidade, uma espécie de ‘fita de realidade’, onde um scanner laser lê as perfurações na fita para reproduzir para o robô os cinco sentidos humanos além de toda a sua percepção de mundo como um todo. E é quando ele começa a brincar com essa fita que as especulações mais interessantes acontecem. Segue um trecho:

“Eu gostaria de controlar o tempo. Inverte-lo. Vou cortar um pedaço da fita e cola-la
de volta de cabeça para baixo. As sequências de causa e efeito, então, vão passar ao
contrário. Por conseguinte, vou caminhar de costas até a minha pia, de onde vou tirar
uma pilha de pratos sujos com a comida produzida pelo meu estômago…então transfiro a comida para a geladeira. No dia seguinte tiro a comida da geladeira, guardo em sacolas e as levo para um supermercado, distribuo a comida aqui e ali pela loja. E
finalmente, na porta, vão me pagar dinheiro por isso, direto de sua caixa registradora. Mas o que tudo isso provaria? Uma fita de vídeo andando de trás para frente… eu não saberia mais do que sei agora, o que não é suficiente.
_O que quero é a realidade extrema e absoluta, por um microssegundo. Depois disso, nada importa, porque tudo vai ser conhecido. Não faltará nada a ser visto ou compreendido”

Antes de terminar, gostaria de ressaltar também que a edição em si não é lá muito caprichosa. Diversos erros de tradução e também de português, acabam por incomodar algumas vezes. No mais, com certeza irei atrás de outras obras do autor para melhor compreender por que coloca-lo na mesma ‘prateleira’ que Asimov, por exemplo, o qual admiro muito como escritor. Mesmo contendo alguns contos bons, mais da metade ficaram bem aquém do que eu esperava, por isso não recomendo esta coletânea, sugiro irem atrás de outras fontes de contos para conhecerem melhor o autor, se esta é a sua intenção.

Texto de autoria de Amilton Brandão.