Resenha | Carrie: A Estranha – Stephen King

“As pessoas não melhoram, elas só ficam mais espertas. Ninguém para de tirar as asas das moscas, a gente só arruma motivos melhores pra fazer isso”

Primeiro que este não deveria ser confundido com um livro de suspense, sendo, desde 1974, e com certo nível de assertividade, a obra mais agressivamente horripilante de Stephen King. Junto de O Iluminado, publicado apenas três anos depois, ambos são compêndios reais de cenas sufocantes, promovendo em suas narrativas um aprofundamento notável nos estudos dos efeitos do medo sobre o leitor de romances de puro mistério, e horror, afinal – o suspense nesses casos ficou lá para trás. H. P. Lovecraft ficaria orgulhoso com o início de King, o ‘rei’ como o mesmo se proclamou, na forma de literatura que o velho mestre, criador do Cthulhu, dominou e revolucionou como ninguém.

Ao seguirmos os passos da atormentada Carrie tentando lidar com suas habilidades sobrenaturais, em plena adolescência, King já comprova ter habilidades próprias o suficiente para alcançar, pelo menos, os pés do seu grande ídolo. Aqui, a fantasia é dividida em três partes ao invés dos capítulos de sempre, e dribla a realidade dos fatos para se tornar assustadoramente factual, na vida de personagens cada vez mais desorientados pelo inexplicável que lhes consome. Logo no início da edição em português publicada pela editora Objetiva, e com a tradução fiel de Adalgisa Campos da Silva ao original, King já revela suas influências para o seu pontapé no mundo das letras, nada felizes ou dignas de aplausos: Carrie – A Estranha foi inspirada pelos fantasmas de duas adolescentes que o escritor conheceu na escola, rejeitadas pelos colegas, e mortas muito antes de completarem os seus trintas anos.

Nisso, sentindo um gosto amargo na boca (e o medo de escrever que fez a esposa de King precisar incentivá-lo a continuar), a rejeição poderia ser o tema principal disso, algo cômodo e relativamente fácil de se lidar. A medida que Carrie White precisa enfrentar garotos cruéis, um mundo que a vê como uma alienígena entre os comuns intolerantes, garotas e professoras que a enojam, sua própria mãe fanática e uma energia telecinética que verte da sua consciência, tal qual as lágrimas constantes de sua fronte, a jornada da jovem de dezesseis anos que afinal só quer ser respeitada, se possível passar despercebida e, claro, se divertir no seu baile de formatura, inspira Stephen King a não se limitar por um tema único, ou a mergulhar no dramalhão apelativo que poderia surgir de uma situação dessas.

Assim, ele pincela vários elementos do seu imaginário particular que iria vir a desenvolver com maestria ao longo do tempo, como o choque entre a ciência e a religião, com um cuidado e um zelo de principiante à sua criação que ele mesmo não botava muita fé, enquanto tentava com força botar medo na gente. É notório o quanto ele se esforçou, nessa sua primeira incursão ao terror, gênero que iria dominar a ponto de ser condecorado sob o título de mestre, para nos assustar página a página – e consegue, várias vezes, em passagens nada menos que assombrosas. Para isso, o ritmo é o mais urgente já adotado na carreira do autor: letras em maiúscula, parênteses e palavras de grande impacto dão o tom nos momentos mais tensos da história, como no final do livro – um dos melhores de King, alvo de muitas críticas por como terminam as suas obras, geralmente apáticas em seus desfechos.

Longe ainda de uma prosa sóbria e elegante como viria a apresentar, ou já costurada em torno da sugestão de elementos que tornam viável a onipresença do medo, King aqui é direto para entrar na mente da sua protagonista, construindo uma atmosfera de pura angustia, pressão, e assim, dar à Carrie os seus pares: O oculto, a insanidade, a repreensão, levando tudo e todos a um clímax de total êxtase, e paganismo. Fato é que a menina é uma verdadeira receptora, e vórtice, da perturbação que o seu ambiente também a expõe, que chega e que sai dela, muitas vezes com uma intensidade deliciosa de se ler. Despreparada para o mundo, assim como todos que a rodeiam são para ela, ela é uma grande médium de poderes mal desenvolvidos, humilhada (em todos os sentidos), vivendo sob a sensação de ser sacrificada para servir de chacota alheia.

Fazer o que Carrie faz (não só com os colegas de escola) sempre foi o desejo íntimo das vítimas de bullying, tudo explícito no livro para nos lembrar o quanto o criador de O NevoeiroSaco de Ossos e Cemitério Maldito sabe ser impiedoso com as vidas que tem nas mãos – literalmente. Ao ilustrar com perfeição, enquanto metáfora, o medo de um escritor ao dar à luz o que será julgado pelos leitores, Carrie pode ser encarada fácil e justamente como a melhor personagem de Stephen King. Não somente por ser a sua mais clássica alegoria, e sim por simbolizar toda a sua carreira, a realidade que pessoalmente o assombra ao ponto de precisar externalizá-la ao mundo em forma de histórias, e em especial, por ser ‘a estranha’ a força vital de um dos melhores e mais divertidos contos de horror da literatura contemporânea. Um marco.

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