Literatura

Resenha | Frostbite: Um Romance de Lobisomem - David Wellington

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Para falar a verdade, nunca fui muito fã de lobisomens. Até hoje, não conheço um filme decente que faça jus às criaturas místicas que são uma mistura grotesca de homem e lobo e mais poderosas e ferozes do que qualquer outro predador. No entanto, alguns livros atualmente sobre lobisomens os trazem de uma maneira diferente, não havendo um meio termo: nasceu a lua cheia, são lobos. Lobos de verdade, e não os híbridos bizarros. Esse é o caso de Frostbite e, apesar de eu preferir o modo trash lobisomem de ser, esse livro está entre os melhores relatos desses monstros que eu já tive o prazer de ler. Com personagens atormentados e uma sequência frenética de acontecimentos, essa é uma leitura indispensável para todos aqueles que buscam por sangue e um ritmo caótico.

Narrado em terceira pessoa, essa mesma narrativa se divide em dois momentos: quando Chey, a protagonista, está em sua forma humana, e outro enquanto ela está em sua forma de lobo. É evidente a mudança que ocorre mesmo no modo de contar a história quando esses dois momentos mudam. Quando humana, tudo se desenrola de acordo com os sentimentos da protagonista, seja quando está com raiva, com medo ou com a certeza de que vai morrer. Quando loba, tudo que quer é sangue e morte, dando assim um ar tenebroso para aquela protagonista que, mesmo forte, não parecia ter essa maldade dentro dela.

Sim, tem um casal protagonista de lobisomens (own). Porém, não há drama e não há meninices nessa parte. Você torce por eles por serem parecidos (veja bem, no primeiro encontro deles como humanos, ele tenta matá-la com um machado. No primeiro encontro deles como lobos, ela tenta arrancar a jugular dele com os dentes, não é o casal perfeito?) e combinarem. Porém, desde o princípio fica evidente que a protagonista tem um segredo que a levou até ali. E é o que nos leva ao outro ponto forte do livro: os personagens.

A protagonista não é uma donzela indefesa. No entanto, ela também não é a personagem mais útil do livro enquanto humana. Não porque ela não pensa no que faz, mas sim porque os outros são simplesmente muito mais habilidosos e mais treinados do que ela. Porém, ela tenta, e ganha respeito por não desistir mesmo quando tudo parece dar errado e ela está, literalmente, toda quebrada em algum canto da floresta. O outro, Powell, que é o lobo que a transformou, também merece ser mencionado por condizer o tempo todo com a impressão inicial que passa ao leitor. Ele não muda aquilo em que acredita e não contém sua raiva quando certas coisas acontecem. Powell é, acima de tudo, um predador.

Existem, é claro, alguns personagens babacas, como o namorado de Chey, que não o é por ser um personagem mal criado, mas por ser criado tão bem em suas manias que é simplesmente um babaca completo. Todos os personagens são únicos e bem feitos. E agora vamos ao melhor personagem do livro: Dzo.

- Eu sei. O engraçado é que não estou com tanto medo de ser morta como estou de falar com Powell novamente. Mas você não entederia isso.

Ele ergueu as mãos em desculpas fracas.

- Talvez você morra entes de ir tão longe - sugeriu ele.

- É - Ela começou a andar novamente - Obrigada, Dzo.

Ele não se importa com o que você pensa, como você aparenta ou quem diabos você é. Dzo é a criatura mais pacífica e mais despreocupada que você poderia conhecer em toda sua vida. Suas palavras de sabedoria (como visto ali em cima) são indispensáveis para você manter foco no seu objetivo. Como a pessoa que me emprestou o livro disse: todo mundo deveria ter um amigo como o Dzo, e eu concordo com ela. É um personagem cativante que permanece uma incógnita até o final do livro. Apenas capaz de entender frases literais, é digno dos melhores diálogos presentes no livro.

Por último: as transformações. Diferente dos seriados, filmes etc., a transformação que David Wellington narra é muito mais poética do que a grotesca quebra de ossos e dores absurdas. A luz da lua toca o lobisomem e seu corpo se desfaz, como se nunca houvesse existido, e em seu lugar o lobo se materializa. Foi uma surpresa agradável - apesar de preferir as transformações dolorosas e repletas de gritos - ter uma visão de como ele quis colocar os lobisomens: como se lobo e homem fossem duas entidades diferentes com duas consciencias distintas.

Portanto, apesar do final um pouquinho frustrante - afinal, era desejável que a protagonista arrancasse a cabeça dos antagonistas a dentadas -, o autor criou e desenvolveu uma excelente história de lobisomens e recomendo a leitura até mesmo para quem nunca foi, assim como eu, um grande fã dessas criaturas.

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Texto de autoria de Thiago Suniga.

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