Resenha | Hex – Thomas Olde Heuvelt

A minúscula Black Spring parece um lugar agradável. Natureza em abundância, crianças brincando nas ruas, contando em tons de segredos as velhas histórias que tomam conta de qualquer cidade pequena, em qualquer lugar do mundo: histórias de bêbados locais, do estilo de vida do açougueiro e quem está dormindo com quem, talvez até mesmo um detalhe apimentado de qualquer pseudo-celebridade ou pessoa de visibilidade pública. Black Spring é uma cidade rica em História, uma cidade que tem vários séculos de existência e que procura manter-se relativamente isolada de seus vizinhos, ainda que mantenha um diálogo aberto, até mesmo um festival anual para injetar um pouco de vida no comércio local; uma cidade com mais História, mitologia e personagens de notável importância do que seus visitantes poderiam imaginar.

O que difere Black Spring de tantas outras cidades é uma herança da Caça às Bruxas: Katherine, uma horripilante bruxa de olhos e boca costurados, que vaga pela cidade a seu bel prazer, sem realmente se importar com trancas ou fechaduras. A bruxa pode, afinal, desaparecer para então surgir onde quiser, em qualquer lugar da cidade. O que seria de uma bruxa sem uma maldição? O grande mistério de Black Spring é que, se você nascer dentro de seus limites ou até mesmo passar um noite no lugar, uma pessoa jamais poderá se afastar por muito tempo: depois de dias longe da cidade, uma silenciosa depressão se instala, tão sutil e fatal que é percebida somente quando a corda já está amarrada em seu pescoço e a cadeira balançando por baixo de seus pés.

Thomas Olde Heuvelt criou uma história de premissa interessante, com ares de um clássico contemporâneo instantâneo, um título que entrega ao livro a ilusão de que basta acrescentar água quente e esperar três minutos para consumi-lo sem moderação. Não é o caso. Apesar da interessante premissa, HEX toma rumos que, inesperados e esquivos do meio comum, falham em entregar uma trama profunda, escolhendo temas que fogem dos clichês ao trazer modernidade ao cenário até então medievalesco, mas que se tornam ralos, tão superficiais quantas tantas outras histórias de bruxa, só que com cores diferentes. HEX se inspira no contemporânea para criar um senso de relacionamento com o leitor. Como, afinal, proteger o segredo de alguns milhares de pessoas na Idade Facebookerna? Como impedir que as crianças deem com as línguas nos dentes ao invocar – 140 caracteres por vez – nas redes sociais a verdade sobre a bruxa de Black Spring, um ser com mais de quatro centenários de existência e que deve, acima de tudo, continuar com boca e olhos costurados?

O romance nos mostra em poucos pontos de vista o cotidiano da cidade, sempre girando ao redor da bruxa enquanto procura qualquer aspecto de normalidade que consiga agarrar pelo caminho. Depois das devidas apresentações, Heulvelt logo centra a escrita ao redor de um pequeno grupo de garotos que pretendem se rebelar contra ambos, a bruxa e a própria cidade.

Enquanto pertencer ao local começa a ganhar vapor nas páginas de HEX, o foco logo se transforma para a quebra entre gerações, para o mal que uma sociedade levada ao extremo pode cometer. HEX, então, se transforma numa história corrida, que consegue prender o leitor sem nunca realmente grudar seus olhos. Quase como se eles estivessem costurados.

Talvez seja um problema da versão que chega para o mundo em que o Holandês não é língua comum. A versão de HEX que chega às Américas é uma reconstrução do original, onde Heulvelt muda o cenário da exótica Holando para a mistura de clichê que encontramos em um romance norte-americano. Vá na sua prateleira e puxe um livro que se passa nos Estados Unidos e que tenham sido escritos depois de 1980. Os personagens serão bem parecidos com os de HEX. É irônico que, ao tentar se aproximar de uma nova gama de leitores, o livro possa ter perdido todas as características que apelariam a eles, o público alvo.

É uma história que perdeu a chance de ser um clássico, essa é a impressão que fica depois que a última página já ficou para trás. Ao tentar fugir do meio comum, Heuvelt lançou ao ar mais bolas do que conseguiria manejar. São tópicos interessantes e que tomam rumos que lhe farão espiar o próximo capítulo, mas que nunca entregam tudo o que prometeram ao dar as caras. De novo, é uma pena. De verdade. De quebrar o coração. Isso porque a história é interessante. Com o desenvolvimento fraco, deixa na boca o fantasma de um gosto difícil de comparar, impossível de completar. Katherine, a bruxa que amaldiçoa a cidade é uma das personagens mais sinistras da literatura, no sentido literal da palavra, já que sua presença é o presságio de páginas funestas. Ela tem todo o direito de tirar o seu sono, de agarrar os dedos de seu pé assim que eles ficarem descobertos. A boca firmemente costurada, que deixa apenas escapar um murmúrio que tornaria os campos estéreis e secaria o leite nas tetas de qualquer vaca, deveria assombrar seus próximos anos, mas não vai.

HEX é apenas a promessa de um grande livro. Uma leitura boa, por vezes mediana, mas que tinha o potencial de fazer muita gente perder o sono. O mais engraçado é que, na tentativa de abordar temas grandiosos e que, de forma maestral, encaixariam tão bem na absurda história de Black Spring, HEX acaba com costuras feias em seu corpo, linhas pretas que prendem partes diferentes e que não deixam a história enxergar para onde deveria ir. E nem mesmo protestar por conta disso.

Compre: Hex – Thomas Olde Heuvelt.

Maurício Ieiri é um historiador que não faz História. Atualmente, tentando descobrir o que fazer com sua vida, partindo deste exato momento até o dia em que morrer. No meio tempo, escreve ficções. Participou do blog coletivo Os Caras do Clube e recentemente lançou seu primeiro romance, Incursões. 

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