Resenha | O Último Homem Bom – A. J. Kazinski

o último homem bom - capa

Comparado – na própria contracapa do livro – a Dan Brown e Stieg Larsson, o autor (na verdade  dois, que assinam sob o pseudônimo de A.J. Kasinski) consegue surpreender apesar de tudo. Digo “apesar de tudo” pois os autores, Anders Rønnow e Jacob Weinreich, fazem bom uso das marcas registradas daqueles a que são comparados. O texto junta a estruturação dos livros de Brown e a concisão e coesão de Larsson. O resultado é um livro de leitura agradável que foge do clichê e conquista o leitor com uma narrativa ágil e fluida.

A “receita” usada à exaustão por Brown – homem ligeiramente deslocado do seu meio encontra mulher com habilidades intelectuais acima da média a fim de solucionar um problema – está lá de forma inconfundível. Contudo, o que torna a narrativa instigante é o bom uso que os autores fazem dela. Os personagens são apresentados aos poucos, fazendo o leitor aproximar-se deles e se interessar pelos seus destinos enquanto os acompanha em suas jornadas. O policial italiano Tommaso di Barbara, o detetive dinamarquês Niels Bentzon e a astrofísica Hannah Lund são “palpáveis”, personagens multifacetados que, justamente por não serem rasos, não serem o estereótipo de suas profissões conquistam o leitor pois há, neles, sempre alguma característica com que o leitor se identifique. E quem escreve – e quem lê também – sabe que a identificação é o que pega o leitor pela mão e não o solta até que a trama termine. Pois ao leitor interessa saber como a situação será resolvida, afinal, pensa ele: “Isso poderia estar acontecendo comigo”.

Essa apresentação dos personagens deixa o início do livro um pouco mais lento do que se esperaria de um thriller e isso talvez afugente alguns leitores. Há também o fato de que os capítulos iniciais narram estórias aparentemente “avulsas”, com pouca relação à trama principal. O leitor demora um pouco até conseguir enxergar as conexões e perceber que, apesar de parecerem gratuitas ou desnecessárias, essas cenas têm relevância e acrescentam informações interessantes à história. Claro que algumas poderiam ser suprimidas sem prejuízo, mas não chegam a prejudicar o ritmo da leitura, nem o entendimento da estória.

Outra característica que lembra Dan Brown é a estruturação do romance, mais especificamente, o uso de capítulos curtos. Essa técnica não é exclusividade de Brown, mas remete a ele pois é o autor que a usa de forma mais exagerada, com capítulos que não chegam a preencher duas páginas. Rønnow e Weinreich a utilizam de modo bastante eficiente, controlando o ritmo da narrativa e espichando ou encurtando os capítulos de acordo com o nível de tensão das cenas. Não é um thriller detetivesco de ação ininterrupta, que possivelmente deixaria o leitor exausto ao final. Há cenas mais contemplativas – geralmente as que entregam ao leitor mais informações sobre a personalidade dos personagens – que permitem ao leitor “respirar” e recuperar o fôlego antes que o próximo conflito se apresente. E, mesmo não incluindo cliffhangers a cada final de capítulo, os autores fazem o leitor se sentir compelido a continuar.

Interessante notar que, ao contrário da maioria dos thrillers, em que a corrida contra o tempo tem a finalidade de encontrar um (ou mais) criminoso(s), neste os protagonistas estão à procura de homens bons, geralmente envolvidos com alguma ação humanitária. Todas as pistas são analisadas com o intuito de localizar os próximos alvos e não o responsável pelas mortes. E essa inversão é citada várias vezes no texto, quando os personagens questionam por que é tão mais fácil empreender uma busca a um homem mau e por que as pessoas relutam tanto a ajudar quando o objetivo é encontrar uma pessoa boa.

Para os leitores que apreciam um bom thriller que não seja apenas um encadeamento de cenas de ação intercaladas com verbetes da wikipedia este é sob medida. Diversão e entretenimento de qualidade.

Texto de autoria de Cristine Tellier.