Resenha | Os Filhos de Anansi – Neil Gaiman

Neil Gaiman é o bardo moderno que mistura histórias mitológicas com cotidianas. Em Os Filhos de Anansi, publicação da Editora Intrínseca, não é diferente. Partindo do pressuposto de como seria a vida de alguém filho de um deus antigo, e não qualquer um, mas Anansi, a aranha tecedora de histórias primordiais, Gaiman cria uma narrativa bonita e atual sobre reconciliação e herança familiar.

Anansi é a Aranha que surrupiou as histórias do Tigre. O Tigre era o primeiro dono das histórias, mas elas eram violentas, sangrentas, duras, e por isso ninguém as gostava de escutar, mas quando a Aranha as reivindicou, os ouvintes passaram a contar e ouvir histórias com mais gosto. E por isso todos dizem que as histórias pertencem a a ela.

Charlie Nancy é um homem pacato vivendo em Londres prestes a se casar, na bagagem familiar, uma mãe morta e um pai desaparecido. Quando sua mulher pede para que ele chame o seu pai (o mesmo que gostava de fazer piadas com ele quando criança), a festa de casamento, Charlie telefona para uma antiga vizinha e descobre que seu pai está morto. Certo de que gostaria de dizer muitas coisas ao pai, ele volta para casa e encontra duas informações surpreendentes: tem um irmão e ambos são filhos de Anansi, um deus africano que toma a forma de aranha.

Os irmãos nada se parecem, enquanto ele é quieto, introvertido e envergonhado, Spider tem poderes, é expansivo e consegue tudo o que quer. Encontram-se em Londres por conta do casamento de Charlie e aí começam os problemas de convivência; não conseguem dividir o mesmo espaço, mesmas vontades e o mesmo passado. A desunião entre os dois leva a um conflito que envolverá não só os próprios filhos, mas todos os familiares e amigos ao redor.

Gaiman costura o passado com o futuro de forma elegante e mítica. Ao se apoderar do mito de Anansi para contar a história, toma liberdades interpretativas sobre a teia de seus personagens, intercalando-os ou remodelando como um arquiteto invisível por trás de suas tramas pessoais e familiares. Os Filhos de Anansi é uma história de reparação familiar, união e desunião a ferro e fogo, temperada com folclore e música. Charlie Nancy não é um semideus como seu irmão, mas quando canta, as coisas acontecem da forma que ele quer. Música é sua magia, um Orfeu vestido de aranha. O complicado é fazer um introvertido cantar, aí está a chave.

Os Filhos de Anansi pode ter um começo devagar, mas engrena muito bem. Uma história saborosa, familiarmente crível e mitologicamente bem feita. Livro muito recomendado.

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