[Resenha] Superdeuses: A Era de Ouro – Grant Morrison (Parte 1)

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Grant Morrison é um dos expoentes da chamada invasão inglesa dos comics americanos nos idos dos anos 80. Seu começo nos quadrinhos dos EUA foi com Homem Animal, transformando um reles coadjuvante em um personagem com histórias complexas e das mais populares. Com o tempo, angariou bons momentos na retomada à fase séria da Liga da Justiça, repaginou heróis como Batman e Superman (este nos pós-novos 52) e foi responsável por mega-sagas, como DC Um Milhão e Crise Final. Em Superdeuses, Morrison prometeu fazer uma análise meio jornalística e meio literária, no que ele chamava de panteão moderno, apontando os vigilantes coloridos como o novo Olimpo e novo objeto de adoração das multidões. Seu texto – e esta análise consequentemente – se divide cronologicamente em quatro Eras, e esta é a A Era de Ouro.

Os heróis dos anos 1940 tinham um bocado de ambientação fantástica e o escapismo era uma alternativa para a paranoia das guerras que ocorreram no mundo. O autor escocês relata que se inspirava nos super-feitos dos arquétipos heroísticos para ver seu mundo de uma forma mais positiva e idealizada. A ideia do Super-Homem não precisava ser real, necessitava apenas superar o ideal da Bomba – visto que este começou a desfrutar dos quadrinhos na época da Guerra Fria – no imaginário do pequeno menino sonhador.  O Superman era tido por ele e pelo público como um ideal, físico e comportamental. Seria uma contraposição à grave crise econômica pela qual passava a América, e que ainda repercutia com grandes empresários vivendo em condições de vida miseráveis. Aliada a essas dificuldades, contava também a ascensão de Adolf Hitler como chanceler na Alemanha.

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Um dos pontos mais louváveis é a fluidez que a leitura proporciona. Morrison consegue passar o conhecimento de forma natural, sem ser enfadonho ou didático demais, mostrando conteúdo bastante relevante numa fórmula de equilíbrio pouquíssimo vista em ditos similares. Para ele, a capa de Action Comics, em outro tempos, seria uma referência à industrialização, com ênfase no carro como elemento de fascínio capitalista. Em contrapartida, Superman era assumidamente um representante das classes menos favorecidas,  criado por uma dupla de judeus que se utilizava da historia de Moisés, outro herói libertador.

“Superman original era uma reação humanista e audaciosa aos temores do período da Grande Depressão, do avanço científico desregrado e da industrialização sem alma”.

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Superman era a figura poderosa e perfeita, mas a sua contraparte não. Hercules, Teseu e outros heróis eram fortes o tempo todo e não permitiam nenhuma nuance ou dúvida de seu poderio quase infinito. Já Clark Kent era inseguro, com problemas com as garotas, tinha um patrão que o cobrava e um trabalho que exigia muito suor e esforço para ser exercido. Este arquétipo gerava uma fácil empatia nos leitores, assim como Homem-Aranha em seus primórdios – pioneirismo que cabe a Shuster e Siegel, e não a Stan Lee como tanto se fala. A figura de Salvador de outro lugar, papel que o herói veio a tomar com múltiplas interpretações de seu mito, precisa de sacrifícios, e o do Super-homem era o de ser um homem sem pátria, sem passado.

Batman diferia muito do outro herói da National, com um misto de terror gótico de ar barroco e ficção pulp. Suas primeiras histórias exploravam um mundo mais sujo, urbano, visceral, com vilões ligados ao crime organizado das drogas. Um mundo mais corruptível, especialmente se comparado ao do Super. Seu nêmese, o Coringa, seria de suma importância para a lenda do Morcego. O visual andrógeno e camaleônico precederia David Bowie, Madonna, Lady Gaga e até Prince. Batman era o contraponto do Superman em muitos aspectos: Superman era o dia, Batman a noite; Superman era apolíneo e Batman dionisíaco, apesar de começar como um ícone socialista; Super tornou-se o ideal capitalista, já Batman era a exploração do dinheiro por meio de Bruce e de sua aventura escapista e fanfarrona através do capuz. Era um milionário que descontava sua fúria infantil nos bandidos e reforçava os valores de hierarquia; enquanto Superman era o ideal de combate ao crime exageradamente otimista, Batman era uma busca cínica para a solução dos problemas sociais, por meio da violência punidora.

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Batman e Superman inspiraram muitos, inclusive os criadores da Timely (futura Marvel), que, com seu Namor e Tocha Humana, fazia heróis que “desciam do Olimpo” e personificavam as forças da natureza. Namor tinha uma personalidade um tanto rebelde, prenunciando figuras com James Dean e Marlon Brando, um protótipo do anti-herói. Flash (Joel Ciclone) foi o primeiro super-homem acidental, também prevendo o que seria uma praxe nos heróis-Marvel.

Nos anos 40, Superman foi transformado em um bom moço mantenedor do status quo, diferente do herói contestador e intervencionista idealizado pelos meninos judeus. Seu viés revolucionário foi tolhido, como a libido de Elvis foi substituída por farda e cabelo de recruta, como um lacaio preso ao esforço de guerra recriado por um setor de propaganda. A coisa mudaria de quadro timidamente com o Capitão América, de Joe Simon e Jack Kirby.

Morrison ainda destaca o surgimento de alguns heróis marcantes, e faz citações a muitos deles, como Capitão Marvel, Mulher Maravilha, Marvelman etc. Também enfatiza que, com a guerra, o público procurava produtos de cunho escapista, algo para se distrair, figuras heroicas pelo mundo, cada uma com importância única: Astroboy e Gigante de Ferro no Japão; a sensualidade de Barbarella na Bélgica; Diabolik e tantos outros produtos de natureza erótica, ou não, provindos da Itália. Esses personagens costumavam ostentar os estereótipos de seus países como caracterização, ou então usavam as cores da bandeira como uniforme, exemplos de Guardião, Capitão Bretanha etc.

O período imediatamente pós-conflito sepultou o interesse do público por super-heróis coloridos, distantes demais dos sofrimentos causados pela guerra. A busca pelo irreal prosseguiu para um lado oposto: zumbis, junkies, serial killers, monstros radiativos: ascensão do gênero Sci-fi.

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O americano neste momento era próspero, e diante do poderio da bomba, aqueles vigilantes coloridos e bidimensionais ficaram bobos. A Era de Ouro, como em seu começo, terminou com o Superman ainda em alta, graças, e muito, aos investimentos da TV, com George Reeves. Porém, quase todos os outros eram vendidos cada vez menos.

Os quadrinhos de terror quase explícitos da EC Comics ajudaram a fomentar um discurso demonizador da mídia, o que acabou atingindo os super-heróis. O nome do imbróglio era Fredric Werthan, e o motivo da discórdia era o seu Sedução do Inocente. Na visão de Morrison, Wertham utilizou os quadrinhos da EC como desculpa, um precedente para atacar  os pueris vigilantes mascarados. Os homossexuais se levantam, querem ser ouvidos e ter seus direitos legitimados. A corrida espacial começa e olhar para uma revistinha tende a ficar menos interessante diante destas e de outras reivindicações.

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