Resenha | A Arte de Charlie Chan Hock Chye

De quantas maneiras pode-se contar uma história? Em A Arte de Charlie Chan Hock Chye, o quadrinista Sonny Liew, nascido na Malásia e radicado em Singapura, mostra que não existem limites narrativos quando há um domínio pleno do meio escolhido para se transmitir uma mensagem.

A partir dos olhos do fictício quadrinista singapurano Charlie Chan, Liew se propõe a contar a história política de Singapura, desde os anos 50 até os dias atuais. Criando a narrativa através de uma espécie de acervo documental da trajetória de Chan como artista de quadrinhos, o autor concebe uma espécie de metaficção historiográfica, ficcionalizando em cima de fatos da história singapurana, ilustrando passagens complicadas do processo de formação do país através da subjetividade do trabalho de um artista já idoso e reflexivo quanto a sua trajetória. Em um exercício espetacular de metalinguagem, Liew brinca com os limites entre real e imaginário, ao navegar simultaneamente pela história de seu país e dos quadrinhos propriamente ditos.

A forma como Chan escolhe para contar suas histórias, repletas de subtextos políticos e pertinentes aos delicados eventos históricos de Singapura, dialoga fortemente com a tradição dos quadrinhos ao redor do mundo. O uso de funny animals, de traços mais infantis, estilizados, variando entre histórias de selvas, guerras e até tokusatsus, evidencia uma preocupação de Charlie Chan em se mostrar versátil ao longo dos anos, na busca pelo sucesso enquanto quadrinista. De Osamu Tezuka a Frank Miller, o autor passa por diferentes estilos de traços e enquadramentos, estabelecendo diferentes níveis de percepção do trabalho, para além do campo diegético. A busca pelas referências históricas dentro da narrativa é um deleite para quem pesquisa e se interessa pelo processo de desenvolvimento dos quadrinhos em si.

Liew demonstra com esse trabalho um domínio não só artístico quanto histórico em relação à narrativa gráfica propriamente dita, fazendo uso de montagens de páginas extremamente inovadoras, emulando ao longo das páginas papéis antigos e desgastados pela ação do tempo, recortes colados com fita em páginas em branco, concebendo dessa forma a ideia de um arcaico acervo do trabalho de Chan, que dialoga com seu leitor a todo instante, enquanto comenta sua vida e obra. É interessante perceber como o autor acaba se inserindo na própria trama e fazendo de si um ator, ao “interpretar” o virtuoso Charlie Chan, empregando diferentes traços e estilos, conferindo verossimilhança para sua proposta, levando muitos a acreditarem erroneamente que existe de fato um quadrinista singapurano chamado Charlie Chan. As fronteiras entre ficção e realidade encontram-se extremamente diluídas e confrontadas, nesse brilhante trabalho de Liew.

A Arte de Charlie Chan Hock Chye rompe com as fronteiras da narrativa gráfica tradicional, tecendo um cuidadoso panorama das tensões inerentes ao desenvolvimento de Singapura, passando pelas questões de classe e pelo dualismo de um mundo fragmentado entre capitalismo e comunismo, sob o mar de incertezas da Guerra Fria.

A obra, trazida ao Brasil pela editora Pipoca & Nanquim, conta com 320 páginas em papel offset e capa dura em alto relevo. Prestigiada internacionalmente, a obra ganhou três prêmios Eisner no ano de 2017. Sua trama foge do padrão e entrega uma poderosa e metalinguística narrativa, que funciona tanto como experimentalismo estético quanto como relato histórico de toda uma nação.

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