Resenha | Anésia

Logo no início do encadernado Anésia, do cartunista Will Leite, descobrimos que a ideia sempre foi fazer uma série de quadrinhos publicados na internet com uma personagem toda especial, e bem familiar a quem lhe deu vida por meio de traços bem peculiares, e indiscutivelmente habituais a todos. Afinal, ao folhear um jornal ou uma revista, ou mesmo em algum site de cultura pop, feito o willtirando.com.br, quem nunca passou o olho por uma tirinha da vovó mais rabugenta e hilária do Brasil?

Ela não tá pra brincadeira! Will Leite consegue injetar uma força representativa e um carisma todo próprio para uma senhora que todos adoram odiar, com 65 páginas do mais puro suco do mau humor que temos notícia. Fofa, do lar, e nada recatada, Anésia vive mil e uma aventuras dentro e fora de sua casa, geralmente envolvendo sua família e sua inseparável e antiga amiga Dolores, seu exato oposto, cheio de otimismo e amor para dar – o que definitivamente não tem nada a ver com a nossa protagonista.

Eis um exercício difícil de fazer, e que Leite nos torna acessível através de sua criação com uma facilidade impressionante: Como tornar alguém detestável, uma figura irresistível? Na receita do cartunista, o truque é colocar Anésia em situações perfeitas a tanto, como por exemplo perdida num asilo cheio de idosos malucos, numa perfeita referência a jornada de Dorothy, em O Mágico de Oz, ou inserindo a vovó em história reais que merecem ser caricaturadas de um jeitinho todo especial, fazendo-nos gargalhar do começo ao fim.

O curioso é como todos nós conhecemos uma Anésia, seja da nossa família, ou não. Fica fácil perceber o quanto essa senhora que nunca sorri (nunca, mesmo!) é uma homenagem do artista as avós com quem cresceu, examinando seus costumes, sua forma de falar e agir, o humor característico de quem não tem mais nada a perder – muito menos a chance de mandar Dolores calar a boca. A ironia mora nessa análise transvestida, aqui, numa compilação de mais de cem tirinhas de grande irreverência e energia humorística, em tons de rosa propícios para espantar as energias negativas. “Quanta ironia”, diria Anésia.

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