Resenha | Batman – Pulp Fiction

Batman - Pulp Fiction

A série Túnel do Tempo costuma colocar os personagens canônicos da DC Comics em diferentes linhas temporais, mostrando a rotina de suas aventuras em uma nova ambientação, algumas vezes no mesmo local, mas sempre em épocas diferentes. A terceira (de quatro) edição do especial Batman 70 Anos contém duas boas aventuras: Gotham City 1889, em meio a Era Vitoriana, com a sensacional arte de Mike Mignola, explorando o personagem com figuras históricas, como Sigmund Freud e Jack Estripador, e Batman Pulp Fiction, ambientada nos anos 1960, em meio a Guerra Fria. Basicamente, esta é mais um demonstração da atuação do Morcego em seu cenário, fazendo de Gotham City o palco perfeito para as suas atuações de amedrontamento dos criminosos e malfeitores supersticiosos.

Batman – Pulp Fiction foi publicada em Thrillkiller 1 a partir de janeiro de 1997, e conta com roteiros de Howard Chaykin e arte de Dan Brereton. A história explora uma Gotham situada no ano de 1961, época pós-geração beat, pós-macarthismo, e recém retirada do período de Einsehower na presidência da América.

O narrador da história desdenha do otimismo psicodélico que envolve os habitantes da gótica cidade. Os tempos eram outros, sombras pairavam sobre a nação e ainda mais sobre Gotham City. O ultramoralismo predominava no pensamento geral, mesmo no comportamento da classe criminosa. Os homossexuais eram restritos a guetos e os bandidos eram organizados. Duas Caras — que supostamente não é Harvey Dent, visto que ele age como promotor da cidade — trabalha como um mafioso que extorque dos comerciantes locais uma substancial parcela dos lucros, até que é impedido por dois vigilantes fora da lei: Robin e Batgirl. Uma nova ideia de dupla dinâmica e com visual bem mais adulto que suas contrapartes do universo DC regular.

O departamento de polícia é composto pelo rebelde e antiquado James Gordon, que neste universo paralelo também tem de lidar com a corrupção dentro do batalhão, e seu (praticamente) único aliado é a “mosca branca” anti-corrupção avatarizada na figura do detetive Bruce Wayne, herdeiro da tradicional e falida família Wayne. O mesmo senso de justiça é presente nesta contraparte, mas, graças também à falta de recursos, sua forma de combate ao crime é uma aposta mais baixa e modesta.

A corrupção atinge os maiores pontos da alta roda da cidade. Há um conluio dos mais escusos entre o prefeito e alguns dos malfeitores e ex-detentos do Arkham. O envolvimento entre eles esconde crimes como assassinatos de pessoas influentes, quase sempre visando culpar os poucos “cavaleiros brancos” de Gotham. Como nas histórias noir, há um triangulo amoroso entre os heróis envolvendo Barbara Gordon, em sua dúvida entre ter como par Dick Grayson ou Bruce Wayne. O curioso é que mesmo com os antagonistas famosos presentes, ainda que em versões diferentes, é notório o envolvimento do prefeito Ryan na conspiração, que concentra muita influência política e, claro, muito poder dentro do cenário de vilania do município.

Uma reviravolta após o fim da terceira edição rearranja os principais personagens. Wayne torna-se fugitivo, graças à falsa acusação de assassinato de Selina Kyle, e abraça o manto do morcego finalmente. A dupla dinâmica muda, e as coisas começam a ficar mais cruéis e sinceras, além do aumento da violência. É curioso o retorno de Bruce à mansão e a escolha pelo vigilantismo, pois estes revelam o retorno ao seu estado de espírito preferido e é uma reafirmação de sua natureza. Apesar de ter sido um policial, não poderia negar o próprio ethos e seu entendimento de justiça singular, muito mais intervencionista do que o de um tira comum.

Apesar de ser repleto de boas referências, o roteiro torna-se secundário diante da arte surrealista de Dan Brereton; a anarquia de seu lápis combina demais com as cores, e as curvas femininas ficam muitíssimo bem grafadas, sensualidade essa que é uma das mais importantes na tônica de toda a trama. O fim da história principal guarda alguns fatos interessantes, mas não faz da revista algo totalmente indispensável ou acima da média. Além do já citado desenho de Brereton, Batman – Pulp Fiction pouco acrescenta ao leitor experiente das aventuras do Morcego.