[Resenha] Couro de Gato

Lançado pela Veneta, Couro de Gato – Uma História de Samba, da dupla Carlos Patati e João Sánchez, remonta a origem do samba, a partir das famosas rodas realizadas em morros e no centro velho do Rio de Janeiro. Três histórias atravessam o tema, apresentando momentos distintos da evolução do samba como movimento cultural. Como personagem principal, um bamba fictício, Camunguelo, nome inspirado por um famoso flautista da época. É sob o olhar deste personagem que o leitor acompanha a evolução do samba.

A primeira história que nomeia a obra, Couro de Gato, concentra-se no início do século XX. O samba era uma manifestação de pequenos grupos, reunidos em torno de matriarcas que abriam sua casa para reuniões e manifestações culturais. Distante de qualquer conceito de autoria, o samba representava uma manifestação oriunda do povo africano trazido a força ao país. Nessa época, qualquer manifestação era intitulada de batuque. Somente posteriormente que cada expressão cultural foi ganhando contornos próprios, até chegarmos no samba como um estilo musical.

A reunião dos grupos negros do Rio de Janeiro marcavam um primeiro momento após o fim da escravidão em que muitos vieram até a capital do estado a procura de emprego, e outros que lutaram em campanhas do país, aguardando as prometidas terras que nunca vieram. De maneira sutil, a obra aponta que parte do desamparo foi fundamental para formar um grupo que começava a ficar a margem da própria sociedade.

A segunda história, O Último Samba do Castelo, é a narrativa mais robusta. Centraliza a figura de Camunguelo por sua experiência, contando momentos importantes do Morro do Castelo que, no dia seguinte, seria destruído como uma medida de recuperação do centro da cidade. Outro momento histórico que demonstra a falta de cuidado do governo com parte da sua população.

A história também é espaço para rememorar o início do samba e as diferenças do movimento após vinte anos. A cultura do samba havia se estabelecido e se ampliado em outros locais. Ao mesmo tempo, a trama também desenvolve um pouco mais a trajetória de Camunguelo que narra o passado a uma cabrocha que deseja conquistar. Evidenciando a postura do sambista da época como um conquistador charmoso, um malandro encantador que utilizava a mística poética também na conquista.

A terceira parte se situa na década de 30, quando a música desce do morro, conhecendo o asfalto, bem como compositores da cidade sobem o morro para fazer samba. Uma nova era em que a autoria havia sido estabelecida e o marco de sucesso era a capacidade de vender um samba para tocá-lo na rádio. Camunguelo divide a cena com icônicos sambista da época: Cartola e Noel Rosa. Todos compartilhando um estilo de vida misto em que a malandragem e o cotidiano se transformavam em matéria de samba. Uma crônica cotidiana narrando amores, desavenças e a poesia que fundamentada os versos cadenciados.

A escolha de João Sanchez para compor os traços busca uma interessante originalidade. A primeira parte da obra foi composta em xilogravura, a composição de traços realizados a partir da maneira, famoso nos desenhos da literatura de cordel. As duas partes seguintes foi inspirada pelo mesmo processo, um conceito que Patati chamou de xiloderivado, mantendo as características da xilogravura a procura de um formato original, mantendo a tradição do estilo mas agregando-a a uma forma mais moderna de registrar os desenhos. Tal processo amplia a sensação de imersão na obra, retratando historicamente o samba e visualmente um estilo artístico também importante na nossa cultura.

Promovendo um resgate do nosso samba, Couro de Gato é uma HQ que aguça o leitor para conhecer parte de nossa história musical e partir para outras leituras informativas. A obra conta com uma bibliografia no final para direcionar os leitores a procura de maiores informações sobre uma dos estilos musicais mais ricos da nossa cultura.

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