Resenha | Diastrofismo Humano

‘Diastrofismo: Designação geral dada aos grandes movimentos formadores da superfície terrestre e dos continentes; tectonismo.’ – Dicionário Michaelis, 2019.

A modernidade sempre foi diastrofista, e há provas históricas disso. Quando mulheres começaram a usar calças nos anos 1910, inicialmente no Rio de Janeiro, críticos a essa nova moda diziam que a roupa se ajustava muito ao corpo marcando a forma da mulher, o que por sua vez era um atentado ao decoro que uma dama deveria manter, na rua. Em 2013, quando casais gays de homens e mulheres conquistaram o direito de uma união estável nos cartórios em todo o Brasil, mais agito e desconforto então por grande parte da população brasileira. Avanços tectônicos nas normalidades vigentes causam rebuliço em qualquer grupo social, sendo a desconfiança e até o medo forças tão naturais, quanto inevitáveis, na maioria das vezes. Ser você, já que todo o resto já se corrompeu, custa.

Mas se esse agito que nasce com o passar das luas é promovido e alimentado geralmente nos grandes centros urbanos, onde não há tempo para se ver a lua, e espera-se que haja uma grande diversidade de identidades, de interesses individuais e coletivos, num mix de propósitos sociais, como seria esse fenômeno na pacata e distante Palomar, de Gilbert Hernandez? Assim como na excepcional coletânea de parábolas Sopa de Lágrimas, Palomar continua a ser retratada como um povoado que vive em sua própria dimensão de valores, lendas, ritmo e costumes impossíveis de resistir dentro das metrópoles agitadas – e, como sabiamente prova Diastrofismo Humano, com todo humor e sarcasmo destacáveis da HQ, ela tampouco resiste a influência do tempo; aos giros da Terra.

Na trama, os personagens adoráveis criados pela mente revisionista de seu autor enfrentam desafios nada menos que metafóricos para a interferência externa: macacos irritantes, um assassino que parece ter brotado entre eles, a necessidade de se abandonar a terra natal, e certos costumes que nas cidades já eram lugar-comum na década de 1980, mas que em Palomar são ‘sinais dos tempos’, como anunciam os mais aflitos com algumas mudanças ainda sutis, mas que começam a tomar corpo entre os cidadãos de todas as idades. Nos anos 80, Hernandez se inspirou na cena punk de Los Angeles, Estados Unidos, na qual fazia parte, para a criação de suas pequenas zines Love & Rockets, retratando nelas uma América Latina que reflete a realidade, mas à margem de um mundo que vive, e pulsa, além das fronteiras de um povo humilde, quase que isolado.

Essa ‘pureza’, digamos assim, é testada pelo novo, pela visão de duas mulheres andando de mãos dadas, ou a ousadia (ou seria uma espécie de libertação?) de uma novíssima geração sem os pudores já enraizados das antigas – ainda, pelo menos. Na graphic novel premiada e publicada, no Brasil, pela editora Veneta, num zeloso trabalho gráfico nesta edição nacional, nota-se claramente o uso de um realismo fantástico e sensível, seja por conta das emocionantes histórias de Palomar, quanto pelos traços ultra expressivos em preto e branco de Hernandez, a fim de impulsionar um espírito latino quente e apaixonante que rasga e atravessa os avanços, resistente como só, para se manter vivo e intacto, ainda que receptivo e até mesmo jocoso as alterações que o passar das décadas nos deixam, de legado.

O embate entre passado e futuro é sentido aqui, como se o presente fosse o resultado do embate entre ambos, e esse choque, um evento que merecesse ser vivido pela gente comum e refletido por nós, leitores da realidade que Diastrofismo Humano discute, poetiza e reproduz de forma ímpar, em páginas de puro ouro gráfico – mais gostosas e realistas que muita novela, por ai. Ainda que se tenha, aqui, o reaproveitamento de temáticas sexuais, sociais e políticas mais bem trabalhadas por uma visão filosófica, e fortemente fabulesca antes em Sopa de Lágrimas, a obra que melhor nos apresentou esse universo caliente de mulheres e homens encantadores e que chegou até a ser comparada a Cem Anos de Solidão, a magia de Palomar permanece intacta, sentida e personificada em seus cidadãos, suas lutas e vícios e fugas, afinal, é tudo uma coisa só.

É tudo aquele lugar, conhecido por todos nós, com diferentes nomes e endereços, que, quando alguém simbólico e intrínseco parte dali, ele fica mais triste, menos especial, e depende de suas crianças correndo por ai e de suas memórias latentes para continuar (ou voltar) a ser aquele bom lugar, de sempre, com sua velha terra servindo de base para que novas faces possam escrever novos murais. Palomar é a América do Sul já desbravada numa casca de noz. Absolutamente irresistível.

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