Resenha | Hellsing

Dinâmico, gráfico e um dos responsáveis pela mudança na narrativa do seu gênero, Hellsing é um mangá de ação publicado originalmente em 1997, escrito e ilustrado por Kouta Hirano. Publicado no Brasil pela editora JBC, a compilação de 10 volumes seguiu o modelo de tankôbon já publicado pelo autor, formato em que cada volume conta com diversos capítulos e serve como uma publicação independente. Os volumes contam com bastante qualidade gráfica e reproduzem com fidelidade o material elaborado por Kouta. Além disso, é preciso elogiar os extras em cada edição, que não apenas contam com comentários e piadas do próprio criador, mas também trazem histórias adicionais do mesmo universo, produzidas antes que ele tivesse mais coesão.

O foco da história é na Ordem Real dos Cavaleiros Protestantes, a Hellsing, organização secreta fundada por Abraham Van Helsing, o mesmo personagem do livro do Bram Stoker. O principal objetivo da organização é a defesa da Inglaterra de forças sobrenaturais, atuando onde o exército tradicional não consegue. A sua principal arma é um vampiro, Alucard, que serve fielmente a Integra Hellsing, herdeira da organização. Posteriormente, outras organizações aparecem, como a Iscariot, divisão do Vaticano com os mesmos fins, e a Millenium, uma divisão sobrenatural de soldados nazistas que conseguiram fugir da guerra e procuram estabelecer uma guerra eterna.

A principal qualidade do mangá é a forma com que ele consegue desenvolver a história. O seu ritmo, baseado nos filmes de ação da época, funciona bem em conjunto com a ação frenética e desenfreada. Diferente de outros mangás, o autor não se preocupa em explicar minuciosamente todos os elementos ou estabelecer um sistema verossímil de poderes. O importante não é como o universo funciona, mas sim o que está acontecendo nele. Essa acaba sendo a principal contribuição de Hellsing para os mangás: trazer uma narrativa ocidentalizada e mais dinâmica para o gênero. Outro aspecto interessante é que, apesar do autor falar que Hellsing teve início como um mangá erótico, a única dica disso é na tensão sexual presente entre alguns personagens, sem necessariamente ser retratada graficamente. A única parte visual que se faz questão é a violência, tendo direito a empalamentos, decapitações e outros elementos que são os principais motivos para o mangá ser indicado para maiores de idade.

Dos problemas, o principal é a exaltação aos nazistas, muito mais presente nas partes extras do que necessariamente na história. O autor em alguns momentos faz alguns comentários e desenhos desnecessários de suásticas que poderiam ser encarados como preocupantes, apesar do tom de piada. Os traços também podem gerar alguma confusão, principalmente nos momentos em que muito elementos aparecem na página, mas não é algo que está presente em todos os momentos do mangá.

É importante falar que Hellsing é um produto da sua época e vários elementos gritam isso. O traço utilizado pode ser encontrado em diversas produções contemporâneas, algo que o próprio autor deixa claro ao compará-lo com Trigun, lançado dois anos antes. Além disso, a temática utilizada, de um universo sombrio povoado por criaturas sobrenaturais era lugar comum na década de noventa. Não à toa que Buffy: A Caça-Vampiros, O Corvo e Entrevista com o Vampiro são produções lançadas nesse mesmo período. Até mesmo o nome dos capítulos pode acabar datando o período de produção, já que são baseados em jogos da época, e incluem claras referências para o autor. Como é o caso de Castlevania, que não apenas divide a temática de criaturas sobrenaturais, como o próprio nome do personagem principal do mangá é o mesmo que o de um dos personagens do jogo, sendo Drácula escrito ao contrário.

Pelas características já faladas, Hellsing é um mangá de leitura fácil e descomplicada. Acaba sendo uma ótima opção para uma leitura depois do trabalho, já que não precisa de muito raciocínio pra ser compreendido, tal qual os filmes blockbusters de onde vem a inspiração para o seu ritmo. A única diferença é que eu não recomendaria pedir uma pizza e se entreter, já que a gordura pode acabar estragando as páginas.

Texto de autoria de Caio Amorim.

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