Resenha | O Trem dos Órfãos

“A vida é uma cadela, e eu um vagabundo!

Esqueçam-me!

Ass: seu pai.”

Estima-se que, entre 1854 e 1929, os trens que transportavam menores abandonados de Nova York para trabalharem no oeste americano levou um total de 250 mil crianças para atravessarem os Estados Unidos da América, ao invés de mendigarem e entrarem para o crime na metrópole ainda bastante pobre, e violenta, da época. Quantas histórias não cabiam nesses trens? Numa dessas viagens épicas, tensas e decisivas para a vida de centenas de milhares de crianças, rejeitadas pelo destino natural de suas famílias oriundas da Europa, o jovem Harvey aprende duas coisas que, setenta anos depois, seria impossível esquecer: a sorte não existe na maioria das histórias, e nessa vida, é cada um por si.

De fato, o irmão mais velho de Anna e Joey aprende isso da forma mais dura possível, e ainda muito jovem, obrigado a se separar da sua linhagem tanto pelo acaso, quanto pelo destino traiçoeiro. Isso porque, n’O Trem dos Órfãos, você é um reles produto na prateleira, e a cada parada do comboio, novos negócios são feitos valendo o destino de cada criança – a maioria indo parar na pobreza, e poucas a conquistar um futuro promissor em suas novas casas. Vendidas em cabarés ou em igrejas, ou em praças públicas onde seus futuros ‘pais’ e ‘mães’ (lê-se: compradores) não querem os aleijados nem os muito magros, pois os afortunados que não receberão uma educação exemplar estão fadados a serem mão de obra barata. Seja no campo, seja na cama. A vida não é para amadores.

E entender isso antes de aprender a ler e escrever pode ter efeitos para a vida, toda. É o que acontece para Harvey, que 70 anos depois, nunca desistiu da ideia utópica de reencontrar Joey e Anna – e, principalmente, se vingar de contas não acertadas e que surgiram no trilha daqueles ferrovias, dentro daquele maldito trem tão sujo, opressivo e que fedia a mijo de criança assustada com o que seria delas – entregues ao mundo. Harvey, já idoso e repleto de memórias impressionantes, é uma sombra viva desse passado cujo peso não o deixa levantar nem mesmo a cabeça. Mesmo assim, numa Nova York ainda mais fria e indiferente que a dos anos vinte, Harvey encontra aliados na sua busca por um pretérito imperfeito que ele nunca superou, mas se nada foi fácil em sua jornada tão atrapalhada pelo acaso, 70 anos depois isso não seria diferente.

A publicação da editora 8Inverso explora com diversão e grande sagacidade a relação conflituosa e irônica entre passado, e presente, sem deixar de ver o lado otimista e aventuresco de ambos os tempos – tão intrínsecos na arquitetura da vida de um homem. Os autores Philippe Charlot e Xavier Fourquemin contaram com relatos verídicos de crianças sobreviventes ao Oprphan Train Riders, o primeiro programa de adoção de crianças da história, e isso não poderia ser melhor para o livro. Em busca de um realismo na história dessas pessoas, e com uma estética bastante expressiva (as cores dos anos vinte são muito mais quentes e interessantes que os tons mais azulados da Nova York dos anos 1990), a história do nascimento da sociedade dos EUA é exposta por meio de imigrantes que nunca chegaram a magia de Hogwarts, ou do mundo fantástico de Nárnia. Desde o berço, o que sobra para eles, e tantos outros, é o imprevisível traço de Deus nos seus caminhos, e a esperança de que tudo, porventura, acabará bem.

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