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Resenha | Pato Donald por Carl Barks: A Mina Perdida do Perneta

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Pato Donald: A Mina Perdida do Perneta é um dos volumes que a Editora Abril lançou com foco na compilação das historias clássicas e originais de Carl Barks. Esse volume é escrito e desenhado pelo autor com um trabalho de cores assinada por  Tom Ziuko e em outras historias por Rich Tommaso. Essa coleção tinha um bonito visual com capa dura, verniz localizado, com os personagens em destaque. Foi descontinuada por motivos comerciais da Abril Jovem e retomada depois pela Panini Comics mantendo o design. As historias são bem curtas, em torno de 10 páginas cada, a maioria com Donald como protagonista com seus sobrinhos trigêmeos Huguinho, Zezinho e Luisinho e algumas contando com o Tio Patinhas.

Barks foi mais que apenas um ilustrador da Disney. Apesar de Donald não ser uma criação sua (assim como os sobrinhos) é dele a autoria a respeito de Patópolis, onde se passam as aventuras, além da maioria dos seus habitantes como Patinhas, Gastão, Irmãos Metralha, Professor Pardal e Maga Patalójika. Ou seja, boa parte da mitologia dos patos é inventada por ele, como visto também em A Coroa Perdida de Gengis Khan e A Cidade Fantasma. Nestas histórias se percebe alguns eventos bem curiosos, como Donald se referindo a si mesmo como um homem e não um pato, fato que fortalece de certa forma a Teoria do Filtro, conceito criado por fãs que consiste em afirmar que os animais antropomorfizados são humanos na verdade, e que têm um "filtro" de animais como aparência. Isso explicaria por exemplo Pluto ser um animal de estimação e Pateta um ser bípede e inteligente. Mas há tantas outras possíveis razões para Donald se enxergar como mais esperto e soberano sobre os animais irracionais, basicamente como se nesse universo fossem os patos e outros mamíferos que evoluíram a condição humanoide, e não os símios.

Outro aspecto digno de nota é a inventividade e engenhosidade dos meninos, que resolvem questões adultas bem sérias, pensam em trabalhar e se mostram muito preparados para além do que segue o famoso Manual do Escoteiro Mirim. Eles são bem mais espertos que seu tutor. Na maior parte das vezes, isso é tratado bem ao estilo dos quadrinhos Disney, de forma engraçada, bem humorada e obviamente escapista.

As diferenças de personalidade e conduta entre Gastão e Donald são bem exemplificadas nas histórias protagonizadas pelos dois. Além da óbvia rivalidade entre os primos, é ressaltada a diferença de personalidade, com um sendo mostrado como um sortudo e preguiçoso, sem mérito algum, enquanto Donald é esforçado e obstinado, apesar de ser resmungão. A expansão dessa personalidade e caráter é muito bem vinda, pois nos curtas produzidos por Walt Disney ele não tem tanto espaço para mostrar quem realmente é. E aqui ele fala tanto que chega a ser verborrágico em alguns pontos. Barks o mostra como alguém articulado, diferente do visto nos curtas.

O roteirista-ilustrador trabalha muito bem a relação de desentendimento entre tio e sobrinhos,  e faz isso de maneira leve e convidativa para possíveis novos leitores. As revistas dessa coleção são um bom ponto de partida para quem quer conhecer ou meros leitores casuais. Além das histórias, há um bom número de extras no final, com textos complementares de professores e especialistas em quadrinhos da Disney, enquanto na narrativa, não há sequer uma história que não seja pelo menos engraçada e incapaz de alegrar quem as lê.

Filipe Pereira

Filipe Augusto Pereira é Jornalista, Escritor, quer salvar o mundo, desde que não demore muito e é apaixonado por Cinema, Literatura, Mulheres Rock and Roll e Psicanalise, não necessariamente nessa ordem.
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