Resenha | Pato Donald por Carl Barks: Perdidos nos Andes

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A coleção dedicada a republicar todas as histórias do Homem dos Patos começou de maneira sensacional! Pato Donald por Carl Barks: Perdidos nos Andes é o primeiro volume da série a chegar às bancas e livrarias brasileiras – embora seja o sétimo da coleção, que não está sendo publicada cronologicamente, da mesma forma que a editora Salvat faz com sua coleção de graphic novels da Marvel – e não poderia ter começado melhor. Publicada nos Estados Unidos pela Fantagraphics, a série apresenta todas as histórias escritas e desenhadas por Carl Barks, e resgata a paleta de cores originais da época (diferentes das últimas republicações, que tinham as cores remasterizadas) além da arte original, sem alterações. Barks foi o mais importante quadrinista Disney, e esta edição mostra porque ele é tão reverenciado.

Perdidos nos Andes traz a clássica história homônima, na qual Donald e seus sobrinhos Huguinho, Zezinho e Luisinho encontram uma civilização perdida onde não existe nada na forma circular, chamada de Quadradópolis. A expedição começa quando acidentalmente, Donald descobre que as rochas em exposição no museu eram, na verdade, ovos quadrados! A investigação sobre a origem dos ovos quadrados (cúbicos, na verdade) leva Donald e seus sobrinhos a uma busca pelas montanhas do Peru, em antigo território inca. É interessante notar como Barks representa os nativos de forma a sempre parecerem exóticos e não-civilizados, além de um tanto quanto preguiçosos ou oportunistas. Parece ser a visão que se tinha na década de 1940 dos povos de terceiro mundo. Mas ao encontrar a tal civilização perdida, num local isolado por montanhas e névoas, vemos que a assimilação de hábitos e costumes norte-americanos está representada através da música que os nativos cantam e da língua que falam (inglês, evidentemente perdido na tradução). Assim, a família Pato passa por diversas situações em um cenário deslumbrante, fruto da melhor fase criativa de Barks.

Além da história-título, ainda vemos na primeira parte do volume – dedicada às grandes aventuras – um outro clássico absoluto: Donald na África. Essa aventura emocionante é também alvo de duas polêmicas. A primeira está na representação dos nativos africanos como figuras sombrias e assustadoras, parte da iconografia estereotipada – e por que não dizer, racista – da época em que foi produzida. Outras edições recentes nas quais essas histórias foram publicadas tiveram sua arte alterada para amenizar o estereótipo. Desta vez, manteve-se todos as caricaturas racistas da época (inclusive um personagem que aparece na primeira página da história, Bop-Bop, que é claramente inspirado nos black faces dos minstrel shows), porém com textos explicativos que contextualizam a obra. Assim, ao invés de varrer pra debaixo do tapete esse momento vergonhoso das representações gráficas de povos afrodescendentes (como fez a Warner com seus desenhos antigos do Pernalonga), a Disney assume seus erros do passado. A segunda polêmica envolvendo essa história é a afirmação do Tio Patinhas de que teria contratado mercenários para expulsar as tribos das terras africanas que ele tomou posse, no passado. São detalhes importantes e com grande significado para entendermos as mudanças pelas quais nossa sociedade passou no último século, mas que não atrapalham ou fazem muita diferença na história em si. Na trama, Donald é perseguido por um zumbi africano que o confunde com seu tio rico e lança nele uma maldição vodu. Donald viaja então para a África pra livrar-se dessa maldição, encontrando o feiticeiro que a conjurou. Interessante notar como o velho Patinhas, em sua breve aparição, faz pouco caso disso, enquanto Donald é movido pelo medo e superstição. Parece que Barks, ao inserir o ceticismo como parte da personalidade do Tio Patinhas, faz uma crítica à credulidade da sociedade.

Mais duas grandes aventuras recheiam o volume, sendo elas A árvore de natal dourada (que já foi republicada há pouco tempo no especial Contos de Natal, porém com colorização diferente) e Primo, você é que tem sorte, onde Donald e Gastão disputam uma corrida naval para salvar seu velho tio em uma ilha perdida.

Embora alguns estereótipos salte aos olhos do leitor moderno, as histórias não são pautadas nas polêmicas, e sim nas personalidades de seus protagonistas. Donald, embora um pato, reflete todos os aspectos da personalidade humana. Ambição, desejo, frustração, medo, raiva… Seja qual for o sentimento, não poderia estar mais humanizado do que nas expressões do Pato. Nos identificamos com Donald, pois não temos a fortuna do Tio Patinhas, a sorte do Gastão ou a esperteza dos seus sobrinhos: o Pato é um homem comum como qualquer um de nós. Embora não possua uma mente brilhante, é um trabalhador esforçado que faz de tudo para sobreviver. Seus sobrinhos funcionam ora como sua consciência, como na história principal, ora como antagonistas, como na história em que Donald é um inspetor de alunos que os flagra cabulando aula.

Além das longas aventuras, temos mais duas partes no livro: uma dedicada a histórias curtas de dez páginas e outra com gags de uma página só. Barks, que trabalhou anteriormente nos estúdios de animação da Disney, sabe conduzir todas elas com maestria. Os personagens aparentam ter volume, peso e ocupar realmente um lugar no espaço do cenário, e a ação ocorre de forma fluida e fácil de acompanhar. Os ricos detalhes dos desenhos não atrapalham a leitura da trama.

Para encerrar o livro, temos vários textos explicativos, comentando cada uma das histórias, assim como uma biografia de Carl Barks nas primeiras páginas. O papel utilizado para o miolo é diferente do que vinha sendo usado nos outros especiais de capa dura da Abril, mas por um motivo peculiar: para preservar a leitura de forma mais parecida possível com a original. Assim dispensou-se o couché, que deixava as cores brilhantes e optou-se pelo off-white, que é mais fosco e cansa menos a vista. Na verdade, tanto seu formato quanto conteúdo fogem do padrão que a Abril estabeleceu nos últimos encadernados, notoriamente por se tratar de uma outra coleção. O volume tem metade das páginas da edição dedicada aos quadrinhos de DuckTales, porém sua qualidade é bastante superior, tanto nas histórias quanto no material extra. Tanto fãs antigos como quem nunca leu uma história dos patos tem nesse volume uma excelente compilação de histórias do maior artista que passou pelas histórias em quadrinhos de Walt Disney.

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