Resenha | Pequeno Pirata

Lançado pela Barba Negra – selo de quadrinhos da Editora Leya – em agosto de 2011, Pequeno Pirata é a segunda obra de David Beuachord a chegar ao Brasil (a primeira foi Epilético pela Conrad em 2007-08). Conhecido como um importante integrante da nova geração de quadrinhos franceses, o autor resgata uma conhecida fábula infanto-juvenil de Pierre Mac Orlan para esta obra indicada em 2011 ao Eisner na categoria Melhor Edição de Material Estrangeiro e destacada em diversas listas de melhores quadrinhos em 2010.

A  trama retoma a lenda do famoso navio Holandês Voador e de seus tripulantes condenados a vagar sem descanso pelos mares, procurando redenção pelos crimes. Enquanto não conseguem quebrar a maldição e se entregar a derradeira morte, os piratas continuam pilhando navios e, em uma dessas investidas, encontram um bebê no meio dos destroços e decidem leva-lo ao navio amaldiçoado.

Explorando a criação de um humano fora de seu ambiente natural, em uma ideia semelhante ao menino Mogli em O Livro da Selva de Rudyard Kipling, a narrativa apresenta uma história simples, composta para promover a reflexão sobre a mortalidade. Vivendo como o único vivo entre os mortos, o garoto não compreende a diferença entre seus semelhantes. Acredita ser um pirata como eles, apenas com breves características diferentes, motivo pelo qual é chamado de o Rei Rosa pela tripulação. Porém, conforme cresce, os piratas reconhecem que é impossível mantê-lo no navio para sempre, elaborando um plano para que ele possa viver na Terra com seus iguais.

O autor trabalha com qualidade o universo dos piratas, apresentando divertidos personagens marginalizados com a liberdade a seus pés. O ambiente marítimo promove bonitas cenas visuais em que se destacam a variedade de tipos na tripulação, bem como um uso sóbrio de cores. Os traços de David B. se adequam a ideia de uma história de aprendizado, com um visual mais cartunesco, típico de ilustrações em livros para jovens leitores.

A narrativa infanto-juvenil deseja, ao mesmo tempo, apresentar uma trama leve que contenha uma mensagem profunda e reflexiva. Mesmo em um cenário tipicamente hostil, a trama apresenta os piratas como um grupo sensível que, mesmo na contradição de serem pilhadores de navios, possuem tanto sensibilidade para saber que o garoto não deve ficar no navio como sensibilidade para reconhecer que, por amor, é necessário deixa-lo ir para a Terra.

A reflexão promovida estabelece a noção da mortalidade bem como a compreensão diante de situações naturais aos homens, de qualquer maneira, difíceis de serem aceitas tanto por jovens como adultos. Embora todos caminhem rumo ao fim, a percepção da perenidade humana é um tema sensível, bem explorado pela trama. Sob o viés de uma história leve, Pequeno Pirata comove pela mensagem universal em sua trama fabular.

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