Resenha | Vertigo Especial – Atire e Outras Histórias

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Qualquer coletânea, de contos, de HQs, de curtas, acaba irregular. Ao juntar esforços de pessoas diferentes é natural que alguns sejam mais interessantes que outros e o especial Atire e Outras Histórias, da Vertigo, é exatamente assim. São três seções: Vertigo Ressuscitada: Atire; Mate Seu Namorado; Estranhas Aventuras. Enquanto a primeira e a última são apanhados de histórias curtas, entre 8 e 12 páginas, Mate Seu Namorado é como um conto longo, de sessenta páginas e o que há de melhor na revista.

Com roteiro de Grant Morrison e arte de Philip Bond, Mate Seu Namorado é a história de uma menina sem nome que vive em uma casa de classe média, estuda em uma boa escola, tem um namorado idiota e está profundamente entediada. Um dia ela encontra um desconhecido que a leva para uma vida de crime, drogas e liberdade. É uma espécie de Assassinos Por Natureza menos violento e, talvez, mais irreal. No entanto, embora a história seja absurda, ela funciona por conseguir capturar muito bem um tipo de tédio e angústia adolescente que me soou nostálgica e familiar. Talvez a personagem tenha imaginado tudo aquilo, mas de alguma forma é completamente verdadeiro.

O desenho bastante realista captura bem as expressões e a mudança da protagonista, e a história ganha quando é sexualmente explícita, deixando claro que não se trata de uma pobre menina seduzida, mas de uma garota que gosta da vida que passa a levar, do sexo, das drogas e das escolhas que passa a fazer. Mate Seu Namorado é interessante não só pela identificação que causa, mas pela personagem feminina que escapa a estereótipos e é sensual e desejável, ela passa boa parte da história de vestido de vinil vermelho e peruca loira, mas é dona da própria sexualidade.

A primeira parte, Atire, traz personagens familiares, como John Constantine e histórias que giram em torno de atos violentos e inexplicáveis, como crianças atirando em outras na escola, um homem que mutila sua mulher, ou ets ao estilo chupa-cabra. São narrativas que parecem ter como pano de fundo a atração irresistível de seres humanos pela violência e a brutalidade. Todas as histórias são cruas e secas, as melhores são também surpreendentes e incômodas, macabras com um pé no realismo.

Nessa seção, Língua Nativa, embora não tenha a melhor história, apresenta imagens aquareladas lindamente soturnas e Brinquedos Novos faz uma interessante metáfora para a falta de sentido da guerra. Diagnóstico, com traço de pop art, é o fragmento mais surpreendente e compensa histórias como Prudência e Morte de Um Romântico, que parecem ser um recorte mal feito de uma narrativa maior.

Já a última parte, Estranhas Aventuras traz histórias de ficção científica visualmente impressionantes. De novo, algumas, como Refugo e O Passeio de Pônei, parecem ir do nada para o lugar nenhum. Mas há narrativas breves e eficientes como o Quarto Branco e Parceiros. O Quarto Branco, aliás, traz um tipo de desenho inesperado e distinto dos quadrinhos tradicionais, com traços fluídos e um colorido que parece feito de giz pastel muito bonito.

A diversidade de traços é no fim uma das coisas mais interessantes de Atire e Outras Histórias, mesmo os contos mais fracos  são interessantes visualmente e há espaço tanto para a experimentação quanto para detalhamento e minúcias. É uma coletânea interessante, com uma ótima história longa e uma variedade de contos estranhos, às vezes muito bons, em outros momentos nem tanto, mas que valem pela variedade.

Texto de autoria de Isadora Sinay.