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Resenha | Vingadores da Costa Oeste: Melhor Costa

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Na esteira dos acontecimentos de sua série solo, que antecede este encadernado e espantosamente ainda não foi publicada no Brasil, Kate Bishop tem trabalhado como investigadora particular em Los Angeles, mas no momento em que tubarões terrestres invadem a costa e a Tigresa surge gigantesca e insana diante de toda a cidade, a Gaviã Arqueira precisa reunir forças com improváveis heróis para darem conta desse perigo iminente.

Nesse intuito, se juntam a Kate seu amigo e mentor Clint Barton, a explosiva Miss America Chavez, a carismática Gwenpool, o infame Quentin Quire e o novo namorado de Kate, o novato Fusão. Em uma aventura tresloucada e pautada pelo nonsense, o grupo encara nessa jornada uma série de vilões de quarta (ou até quinta) categoria, enquanto são filmados e financiados por um reality show televisivo que acompanha suas peripécias pela cidade dos anjos. É isso mesmo que você leu: da efemeridade millenial surge a nova formação dos Vingadores da Costa Oeste!

Com boas doses de humor e no melhor estilo mockumentary, Kelly Thompson faz dessa série a "continuação espiritual" de seu sensacional trabalho anterior, e algumas das tramas trabalhadas em Vingadores da Costa Oeste fazem mais sentido quando se tem na bagagem a leitura das aventuras anteriores de Kate Bishop, de modo que o leitor que simplesmente caiu de paraquedas e só leu esse encadernado pode acabar se sentindo como quem subiu num bonde em movimento.

Os diálogos expositivos ao extremo e muitas vezes preguiçosos podem incomodar em algum ponto e tornar a leitura ligeiramente maçante, mas a vibe de série cômica torna possível que esses problemas sejam relevados em prol de um enredo que flerta com os conceitos mais cafonas possíveis de forma despreocupada e orgânica. Os clichês das aventuras super-heroicas são explorados com um excelente timming pela autora, que debocha do gênero enquanto faz referências diversas, tanto ao meio dos quadrinhos quanto à cultura pop em geral. Nesse sentido, são impagáveis e imperdíveis as participações de Gwenpool e Quentin Quire, o inesperado casalzinho da vez, com seus comentários metalinguísticos e tiradas espirituosas.

As piadas visuais são brilhantemente desenvolvidas pelos desenhistas que acompanham Thompson nessa empreitada, como o grande Stefano Caselli e os pouco conhecidos Daniele Di Nicuolo, Gang-Hyuk Lim e Moy R., em parceria com as cores de Tríona Farrell e do próprio Lim, que trabalha nas duas etapas da narrativa visual. Desse modo, as sequências em off, na qual os membros do grupo dão depoimentos lembram em grande medida séries populares como The Office e Modern Family, o que casa com a proposta de Thompson de fazer do grupo uma equipe de trabalho improvável e unida por laços de amizade.

A tradução de Dandara Palankof, associada com a adaptação de Mateus Ornellas se destacam sobremaneira, na medida em que as piadas e as referências se tornam palatáveis e fazem o texto ganhar fluidez, apesar da expositividade supracitada.

Por fim, Thompson entrega um trabalho honesto e bem divertido, mas que não vai muito além disso, resolvendo pontas soltas da série da Gaviã Arqueira e reativando uma equipe carismática da Casa das Ideias desde os tempos em que John Byrne esteve à frente das histórias, há mais de trinta anos.

Com suas 240 páginas e publicada em capa cartonada, a série tem excelente acabamento e impressão, um formato muito pedido pelo público em geral mas que em diversos momentos é ignorado pela editora Panini, em prol dos encadernados de capa dura, que oneram o preço final para o público e por vezes se tornam menos acessíveis. Fica a esperança de que esse formato faça sucesso e abra caminho para que outras publicações da editora saiam também dessa forma, atingindo ainda mais leitores.

Lucas Fazola Miguel

Lucas Fazola Miguel é professor de português e pesquisador de Histórias em Quadrinhos pela Universidade Federal de Juiz de Fora. www.instagram.com/fazolahqs | www.twitter.com/lucasfazola
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