Crítica | Ad Astra: Rumo às Estrelas

Recentemente começou ocorrer uma espécie de culto ao redor da figura do diretor James Gray, cineasta cuja filmografia ainda curta – lançou ao todo seis longas – inclui filmes de qualidade duvidosa e outras obras bastante elogiosas. A expectativa em relação ao seu novo produto, Ad Astra: Rumo às Estrelas era muito grande, não só por conta do diretor, mas por ser protagonizado por Brad Pitt, que vive o astronauta famoso Roy McBride, e também por se tratar de uma ficção científica intimista, que já foi prontamente comparada com 2001: Uma Odisséia no Espaço de Stanley Kubrick, assim como foram os recentes Interestelar, A Chegada e Gravidade, filmes esses bem diferentes entre si e desse também.

A abordagem que Gray e Ethan Gross conta com uma historia pessoal. O trabalho de Roy envolve engenharia espacial e já no começo há uma contemplação a solidão e ao estado de espírito de egocentrismo em contraponto a ideia de legado. O pai do protagonista foi um herói da exploração espacial, e isso encontrou eco nele, e o ajudou a escolher seu ofício. O espaço vazio ajuda o personagem a refletir, e já na gênese do filme há elucubrações e um abraço a melancolia e ao egocentrismo. Roy vive a sombra do seu pai, Clifford, mas vive também sem saber qual é sua real identidade.

A preocupação do personagem de Pitt envolve a necessidade por opiniões de terceiros além de uma grande carência, um desejo de aprovação sui generis, provavelmente graças a ausência do seu pai. Ele é inseguro, isolado e se vê  tendo um golpe de sorte quando ocorre uma catástrofe em que sobrevive. A cena em que isso ocorre é bem bonita, remete a um ângulo idêntico a vista de uma escada de piscina observada pela parte de baixo, lembrando assim um dos receios típicos das  crianças. O drama do personagem vai sempre na direção de um homem que não teve as bases de uma família presente.

McBride parece anestesiado o tempo inteiro, mesmo quando ouve sobre seu pai, Clifford, ele parece não acreditar nas palavras que são ditas. O Projeto Lima, que buscaria vida extra-terrestre e que foi encabeçado pelo seu parente parece ter sido realmente um evento ousado, e que – novamente aparentemente – está  interferindo nos interesses da Companhia Spacecom, a empregadora dos dois astronautas. É incrível como conceitos complexos, como a exploração capitalista do espaço e o planeta estar em colapso são apresentadas de modo lento e tão natural quanto são aqui, não há estranhamento mesmo que estas idéias sejam tão distantes da realidade tangente.

Tommy Lee Jones vive um Clifford que varia entre o arquétipo de mentor e herói muito facilmente, e mais a frente do filme, ele veste outras máscaras diferentes das que normalmente apresenta nas obras pelas quais ficou famoso. Fora ele e Pitt, as atuações não são muito dignas de nota, o que prevalece é o cenário diferenciado e a situação de descoberta dos medos e traumas da família McBride. Apesar de não verbalizar sequer nas avaliações psicológicas, Roy teme repetir os dissabores de seu pai, e seu ciclo de vida e trabalho realmente encontra ecos demais com os da geração anterior.

A narração do personagem central  é intrusiva as vezes, mas ajuda a provocar no espectador uma situação de incomodo, já que suas falas são para os registros médicos, e o próprio engenheiro se incomoda com toda essa burocracia. Há signos de pura estranheza no desenrolar da viagem espacial da nave Cepheus, como apelo a selvageria primata, um não estranhamento das pessoas quando as vidas são ceifadas. O consumismo que fez o homem ascender  ao espaço aparentemente anestesiou a humanidade como um todo, não permitindo que eles sintam as emoções básicas, desse modo, Roy talvez não seja tão estranho, ele só transparece mais seus incômodos.

O lento desenrolar das sub-tramas revela um espelho de egoísmo e uma paranoia enorme, abrindo a possibilidade de que a paranoia seja o norte de quem tem poder. Há referencias claras a Apocalipse Now de Francis Ford Coppolla, em especial por mostrar personagens que deveriam ser fortes, como frágeis, desesperados e acovardados. O estágio mental deteriorado graças a solidão forçada põe em cheque até os momentos finais, variando entre um desfecho melancólico depressivo real ou apenas uma fantasia de alguém que tem receio em ter fracassado. Os paralelos com mitos bíblicos que sofreram com maldições hereditárias compõe um quadro bem poético para Ad Astra, especialmente quando relaciona o destino do homem das estrelas com a figura de Cristo e a do herói falido, que não quer levar a cruz adiante.

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