Review | Birds of Prey

Há muito tempo, quando séries e filmes de super-heróis eram eventos raros, foi produzida uma série que reunia elementos dos heróis da DC, especialmente do universo do Homem-Morcego. Quando comprada para transmissão na TV aberta, o SBT achou por bem traduzir Birds of Prey para Mulher-Gato, em alusão a uma das personagens da série, mesmo que a ladra cujo alter-ego era Selina Kyle tenha morrido já nas duas versões do piloto.

O nome original do programa faz alusão a revista Aves de Rapina, que ganhou sucesso e notoriedade em 1996, seis anos antes dessa versão. O programa de Laeta Kalogridis reunia a figura de Helena Kyle (Ashley Scott) como personagem principal, que usa o codinome de Caçadora e é filha de Batman e Mulher-Gato (tal qual sua versão nos quadrinhos pré-Crise). Todas as personagens principais têm um passado trágico, Helena perdeu a mãe e foi abandonada pelo pai (teoricamente, e essa versão varia entre os pilotos); Dinah Redmond (Rachel Skarst) também teve sua mãe morta; e Barbara Gordon (Dina Meyer) perdeu o movimento das pernas ao ser alvejada pelo Coringa, como em A Piada Mortal.

Sete anos separam os eventos trágicos do epílogo, onde a Mulher-Gato morreu e o Batman desapareceu do presente da série. Não se explica o motivo do nome do cidade ter mudado para New Gotham, bem como não há muita construção da relação entre as personagens. A união das mulheres é muito dada, não há trabalho narrativo para construção dessa união. No piloto definitivo, a abertura da série mostra um mapa da cidade, narrado por Alfred Penyworth (Ian Abercromble, o mesmo ator que dublou Alfred na série animada do Batman de 1992), que explica como Helena perdeu sua mãe, mostrando o Coringa – dublado por Mark Hammil e feito por Roger Stoneburner como dublê de corpo – esfaqueando a mulher, e posteriormente, atirando na coluna de Barbara, já sabendo que se tratava da Batgirl.

A cena onde Helena salva Dinah lembra muito a cena onde Mulher-Gato de Michelle Pffeifer salva uma inocente no filme de Tim Burton. A maioria dos predicados positivos são referências, os outros pontos são medíocres, como a trilha repleta de músicas que eram moda na época, fato que data terrivelmente a série. Ao menos há um elemento novo: o dom da premonição de Dinah. Isso poderia dar alguma importância para as aventuras das moças, mas obviamente é pouco explorado durante os capítulos.

A série falha em muitas conceitos, como por exemplo, porque a Caçadora seria uma “meia meta-humana” se tanto Batman quanto Mulher-Gato eram humanos. Há outros problemas sérios, como um episódio que brinca com o clichê de que toda mulher nasce para ser mãe, onde as aves de rapina encontram um bebê que cresce muito rápido e ao longo dos quarenta e poucos minutos elas têm de lidar com a criança. Para uma série protagonizada por mulheres, o produto de Kalogridis soa extremamente simplista e machista.

Birds of Prey denuncia uma questão maior, envolvendo a falta de planejamento da DC que vai muito além da péssima qualidade do seriado. Os executivos da Warner sempre foram muito indecisos e confusos sobre seus produtos ligados à editora. Ao mesmo tempo que a série  surfava na popularidade de Smallville, sua iconografia tinha muito dos filmes de Burton, mas também os ignorava completamente, ora, como o Coringa retornou dos mortos após cair do alto de uma catedral? Além disso, o uniforme que Meyer usa como Batgirl é o mesmo de Alicia Silvertone pintado, assim como o do Batman é o mesmo de George Clooney, repintado e com o capuz que Val Kilmer utilizou – porque a Batgirl é Barbara Gordon e não Barbara Penyworth? Essas referencias que pegam só o que é conveniente dos (supostos) episódios anteriores da franquia e cronologia é até acertada, pois Barbara sobrinha do Alfred é uma situação idiota de qualquer forma, mas é impressionante como os mesmos defeitos daqui se repetiram até no cinema.

A série foi cancelada em seu décimo primeiro episódio, mas os estúdios permitiram fazer mais dois capítulos, que serviriam para ao menos tentar fechar a história do programa. Birds of Prey chega ao fim com uma boa ideia repleta de pontas soltas e nada enxuta, além de um elenco que poderia ter entregue muito mais do que ofereceu. A conclusão se dá com Alfred ao telefone, falando supostamente com Bruce, dizendo que o pai deveria se orgulhar muito da filha, deixando em aberto se seria um devaneio ou se realmente o protetor de Gotham largou sua cidade por conta de algo que aconteceu no passado.

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