[Review] Death Note

Em mais um dia banal na escola, Light Yagami assiste a uma aula entediado. Olhando pela janela, vê um caderno preto caindo do céu. Ao sair da aula, vai conferir o objeto. Na capa está escrito “Death Note”, e nas instruções constam que, o humano que tiver seu nome escrito ali morrerá. Light, meio incrédulo, testa o caderno da morte e, para sua surpresa, ele funciona. A partir daí, Light deixa aflorar suas convicções tortas de justiça e se torna um verdadeiro genocida de criminosos.

E o caderno caiu do céu. Ironia, não?

Light faz questão de matar os criminosos na forma padrão do Death Note: ataque cardíaco. Isso fará com que o mundo saiba que existe alguém eliminando os criminosos. Em pouco tempo, o mundo batiza essa “força justiceira” de Kira, pronúncia japonesa para Killer (assassino), o que corrobora ainda mais a verdadeira natureza de Light.

Embriagado pelo poder, Yagami quer se tornar um deus, o ser supremo que julgará as pessoas e tornará o mundo melhor. Aí está a beleza de Death Note.

Light é um adolescente genial, um dos melhores estudantes do Japão. Ao receber o caderno, sente-se o Escolhido e utiliza sua incrível habilidade de raciocínio para criar uma sistemática de assassinatos sem que seja descoberto. Porém, ao longo dos 37 episódios da série, Light se mostra um tremendo psicopata frio e calculista, perdendo o senso de humanidade. Já vi diversas pessoas dizendo que, inconscientemente, torcia por Light, até pelo fato dele ser o protagonista e a série ter como foco suas artimanhas para nunca ser descoberto. Eu mesmo já me vi torcendo por ele. Isso porque assisti a série em quatro momentos distintos da minha vida, sendo a última muito recentemente. E aqui vem a genialidade do roteiro: desta vez, eu desprezei completamente o protagonista. Alguns detalhes de suas atitudes o torna desprezível, um verdadeiro monstro. E mais: em certo momento, ele está mais preocupado em matar as pessoas que estão no caminho dele do que eliminar os criminosos. E a forma calculista e sem humanidade que ele faz isso é assustadora.

A trama mostra um verdadeiro embate intelectual e silencioso entre Light e L, um grande detetive anônimo que já resolveu inúmeros casos dificílimos. L é uma espécie de trunfo da polícia, e será um dos personagens mais intrigantes da obra. Sua capacidade dedutiva é admirável, e as semelhanças com Light o torna a outra face da mesma moeda.

A aparição de Kira causou um enorme impacto no mundo. Também pudera, imagine uma entidade misteriosa matando criminosos por ataque cardíaco. Por um lado, muitas pessoas apoiam Kira, pois a taxa de crimes e guerras diminuíram drasticamente, sem contar a sensação de “justiça sendo feita”. Entretanto, ele tem o direito de matar pessoas a seu bel prazer, utilizando seu próprio julgamento? Poderia morrer algum inocente? Acompanhando as condutas de Light, fica difícil apoiar Kira, visto que várias mortes tem simplesmente objetivo de eliminar pessoas que o estão investigando.  Percebe o debate que a obra traz?

A qualidade do roteiro se mantém alta durante quase toda a série, mas decai um pouco nos últimos 10 episódios. Apesar de várias conveniências de roteiro serem utilizadas nos finalmentes, grande parte delas são justificadas – e muito bem, por sinal. Essa é a grande sacada de Death Note. Os personagens fazem coisas esperando que o outro perceba e tome determinada atitude para, depois, chegar no que havia planejado. É um verdadeiro jogo de gato e rato elevado à enésima potência, quase uma Guerra Fria paranoica onde os personagens precisam deduzir e especular o próximo passo do outro.

Esta série animada foi baseada no mangá escrito por Tsugumi Ohba e ilustrado por Takeshi Obata. A qualidade altíssima da animação ficou a cargo do excelente estúdio Mad House. A trilha sonora também merece destaque, pois dão um clima perfeito às cenas. O ritmo de narrativa é excelente, principalmente nos momentos de raciocínio de Light e L, que são frenéticos.

Talvez você tenha ouvido falar sobre Death Note há anos. Talvez só ouviu falar após o lançamento do lastimável filme da Netflix. Afinal, vale a pena assistir ao anime? Sim, e muito. A obra, na maioria do tempo, é muito pé no chão, verossímil apesar dos exageros. Claro, existe o elemento sobrenatural do caderno e dos seus donos (Shinigami, ou Deus da Morte), mas é um thriller psicológico de primeira linha.

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