Review | Dragon Ball Z – Saga Cell e os Androides

Após uma micro saga com  Garlick Jr como antagonista,  os guerreiros Z estão em um tempo de paz. A nova fase já começa com um episódio filler, em que Kuririn pede a mão de Maron em casamento. A historia termina com o cancelamento do casório e com os guerreiros Z esperando Goku que está a um ano fora. Gohan está as voltas com um novo tutor e professor particular, enquanto Bulma assume para Yamcha que tem algum interesse em Vegeta.

Freeza ainda está vivo, e vem a Terra junto a seu pai, o rei Cold, fato que, de certa forma, contradiz toda a saga anterior. Afinal, ele aparentemente era o imperador dos piratas e conquistadores interplanetários. Todos os personagens humanos se reúnem junto a Vegeta, Piccolo, pequeno Gohan e Kuririn, para verem o inimigo que é capaz de destruir o planeta. Uma vez que Goku não está presente, esse fato parece fácil de acontecer.

A nova aparência de Freeza referencia a Tao Paipai, que também volta com partes robóticas após perder para Goku, e em seguida, também é derrotado por outro guerreiro. No caso, um sayajin de cabelos roxos que consegue se transformar em SSJ. Ele assassina Freeza e seu pai Cold, não sem antes receber a proposta do segundo para trabalhar em parceria, mesmo depois de ter assassinado seu herdeiro. Cold implora por sua vida e morre sem a mínima dignidade.

Goku retorna e diz que descobriu uma nova técnica, o teletransporte, aprendido no planeta yadora. O Sayajin é na verdade Trunks, filho de Vegeta, e ele vem do futuro para dizer que dois seres poderosos aparecerão em uma ilha, monstros terríveis que nem parecem desse planeta. São androides super dotados, humanos com partes cibernéticas – ou seja ciborgues, e não androides como na tradução – e são feitos pelo Doutor Maki Gero, um cientista sobrevivente da Red Ribbon, organização que Goku derrotou na segunda parte do anime clássico, no Arco Red Ribbon. A notícia da doença no coração de Goku é aliviada pela chegada do remédio que Trunks deixa com ele, mas o anúncio das novas noticias deixam todos apreensivos.

As sagas com inimigos cada vez mais fortes contradizem o paradigma da série. Ora, se na Terra havia uma forma de superar até os poderes de Freeza, para que Goku e os outros precisam fazer vagar pelo universo a fim de encontrar novos desafios? Além dessa contradição, há uma outra questão sobre o multiverso que ainda não é abordada: o viajante no tempo volta ao passado sem ter certeza de que existirá ou não. Tal questão será tratada posteriormente, com a chegada de outro personagem.

Após mais alguns episódios fillers, os guerreiros treinam, aventuram-se tentando aprender a dirigir (um dos episódios mais bobos, aliás), e se reencontram no local indicado, na ilha, a espera dos tais monstros. Estes atacam Yajirobe e se apresentam como os androides 19 e 20, representados por um homem obeso e outro mais velho. Eles pegam Yamcha. Primeiro parecem absorver algo antes de derrotá-lo facilmente, trespassando o braço por seu peito.

O androide número 20 assume que observou Goku, através de um robô inseto, mas os dois primeiros que aparecem não são tão fortes. 19 só vence Goku por conta da doença do coração e Vegeta aparece para detê-los, ainda que segundo suas próprias palavras, Piccolo poderia acabar com eles. Finalmente, o príncipe dos sayajins se transforma em Super Sayajin, depois de muito treinar e alcançar isso através da raiva e da frustração por ter sido superado por seu rival Kakaroto.

A tentativa do n 20 de absorver energia dos guerreiros Z tem a intenção de liberar os vilões mais fortes. Uma tática clichê que evoluiria e seria repetida mais tarde também na saga Majin Boo. Alias, nesse período se gasta um bocado das sementes dos deuses, para repor a energia roubada dos heróis.

Dragon Ball Z é um anime de ação com elementos de comédia, mas também faz paralelos com uma realidade trágica e péssima. A paternidade é mostrada como um fardo, seja para Goku, que não pensa duas vezes em ficar dois anos separado de família e amigos para aprender novas técnicas, como para Vegeta, rude com a mulher e com seu filho. Mesmo após perceber que o viajante no tempo é a contra parte a La Cable de seu primogênito, o príncipe ainda é ignorante e turrão, deixando claro que não se importa com eles. Um traço comum aos sayajins, porque até esse momento, tanto Bardock quanto Rei Vegeta também não se importavam muito com os dois SJS de raça pura ainda vivos. É bizarro, porém, como Akira Toriyama retrata as famílias ou exibindo pais ausentes, ou casais não exatamente monogâmicos, como são os pais de Bulma.

Vegeta e Trunks do futuro vão até o local onde despertarão 18 e 17. Após serem despertados, Gero tem a revolta de suas criaturas, pois tinha receio de serem desobedientes, e logo destroe o mecanismo de controle dos androides. Trunks assiste atônito tais fatos, primeiro sabendo que o n19 foi feito em um modelo menor mas forte, que absorve energia com as mãos, composto para terminar a transformação de Gero em n20. O segundo fato é o despertar do n16, o androide que não tem partes humanos, mais frio e imprevisível, possivelmente mais poderoso que os dois irmãos. A questão aqui é que 16 se recusa a lutar, basicamente porque Goku não está ali.

Uma luta começa, Número 18 contra Vegeta. Lula interrompida por Trunks, que não consegue ver seu pai sofrendo. N 17 interfere no embate também e começa uma surra geral para os heróis. há algumas semelhanças narrativas com a parte em que Nappa enfrenta os guerreiros, na saga Sayajin, ainda que eles estejam mais bem preparados agora com melhores treinamentos. Piccolo fica com raiva ao ser comparado com os benfeitores e relembra a Kuririn que quer conquistar o mundo, já que ainda se mantém mal. Obviamente isso é uma falácia, já que seus objetivos mudaram com o passar dos anos. A parte de ação da serie segue bem divertida mas se prolonga em excesso com fillers.

Trunks não parece ser muito inteligente. Enquanto Gohan pequeno já consegue entender o conceito de viagem no tempo e a criação de realidades paralelas, ele parece não compreender nada. Essa ignorância talvez explique o fato do personagem ter sido ludibriado em uma das versões de seu futuro, uma vez que Bulma entra em contato com os guerreiros Z enquanto eles tentam esconder Goku ainda doente, dizendo que há uma maquina do tempo idêntica a que ele usa, só que mais envelhecida. A ideia de Toriyama de referenciar a Exterminador do Futuro não iguala seu personagem a John Connor, e sim ao guerreiro menos esperto, mas ainda assim bravo, Kyle Reese e também Nathan Summers. A nave deteriorada veio três anos após a saída de Trunks do futuro e chegou um ano antes dele chegar e matar Freeza, fato que aparentemente influenciou de alguma forma o poder dos androides 17 e 18, tornando-os mais fortes.

A questão envolvendo Piccolo e sua fusão com Kami Sama é bem discutível em qualidade. Há um flashback mostrando a trajetória de Piccolo Daimaoh, a reencarnação e até mesmo cenas inéditas mostrando Kami quando se candidatou ao posto de deus. A despedida entre o ser divino e Senhor Popo é emocionante, e para não deixar o antigo amigo na mão, a fusão entre as duas partes afirma ser nem Kami e nem Piccolo, e sim uma namekusei que há muito tempo esqueceu o próprio nome.

O nameki então desce a Terra e se defronta com a criatura monstruosa: um ser humanoide com aspecto de inseto que já conhece os guerreiros Z. Este é Cell, um bio androide criado por Maki Gero, mas que foi abandonado pela falta de tempo. Ainda assim, o computador continuou coletando informações e códigos de DNA de Freeza, Vegeta, Goku, Piccolo e os outros guerreiros poderosos, através do mini robô do tamanho de uma abelha, alimentando dados para um computador locaolizado no sub solo do laboratório de Gero. Cell veio do futuro, para tentar se fundir com dois seres únicos, o número 17 e 18.

Toda essa historia é contada pelo antagonista ao namekusenjin que está mais poderoso. A narrativa permitiu que o vilão achasse que poderia derrotá-lo após saber sua trajetória para, então, descobrir que Cell assassinou Trunks em sua realidade e pegou a máquina do tempo programada para voltar um pouco antes da primeira chegada do filho de Bulma e Vegeta.

Os locais após os ataques de Cell tem uma predominância de êxodo: as pessoas estão sumidas, sobram só suas roupas, como nas lendas bíblicas do arrebatamento, ainda que aqui haja mais danação maior do que bonança ao contrário do conto bíblico. Goku acorda e imediatamente sente fom como bom glutão que é. Mas seu impulso inicial é de disciplina, seu desejo é ir para a sala do tempo com os outros sayajins imediatamente, para ficar mais forte que os adversários.

Piccolo parece capaz de deter 17 e luta bem contra ele, mas o androide leva vantagem por não cansar. Ainda assim, a luta não termina, porque Cell aparece, e finalmente 16 entra em ação para enfrentar Cell, a fim de salvar o seu amigo. O bio Androide e Cell tem o mesmo nível de poder e Cell tenta absorve-lo. Esse conceito também seria revisitado em Majin Boo. De maneira impressionante, Toriyama consegue reciclar conceitos sem ficar tão evidente a repetição.

Depois de se tornar a figura mais poderosa do universo, Cell ainda quer se fundir a 18  em mais um exercício de vaidade. Por mais que DBZ seja um anime de ação descompromissada, a ideia por trás da vaidade é bem madura, seja no que se vê em Cell, que quer ser a criatura de poder supremo, ou em Vegeta que continua em busca de ser mais poderoso que seu rival Goku. Na prática , essa busca do Sayajin é uma mostra de infantilidade para se provar como o mais forte, ação típica de animais machos inseguros que deixam sua arrogância falar mais alto e que não conseguem ter maturidade ou humildade suficientes para perceber que podem ser superados. Até o final do seriado, Vegeta cometeria esse erro diversas vezes.

16 além de ser totalmente cibernético, é também baseado no soldado que era filho de Maki Gero – fato revelado em retcons no jogo Dragon Ball Fighter Z –  além disso, ele claramente tem um visual que se assemelha ao de Arnold Schwarzenegger em Exterminador do Futuro. Curiosamente, também mudando de lado como faz T800 em Exterminador do Futuro 2.

Vegeta supera os poderes de um SSJ e Cell, em sua segunda forma, não é forte suficiente para derrota-lo. O sayajin continua arrogante e desdenha do bio androide. A luta é bastante feia, não há muitos movimentos. A sequência é quase toda estática, mais que o comum até aqui, talvez motivada pelos detalhes da figura de Cell, cheio de manchas, fato que causou arrependimento no autor que detestava desenha-lo, por conta da quantidade enorme de detalhes.

A fase final de Cell só é atingida graças ao preciosismo dos personagens. Primeiro de Kuririn que ao invés de usar o dispositivo que desativaria 18, destrói o tal controle. Depois, Vegeta permite que o vilão absorva a androide porque quer saciar sua curiosidade a respeito dos poderes do adversário para confrontá-lo.

Os jogos de Cell se dariam em dez dias, tempo mais que suficiente para Vegeta e seu filho não só crescerem de poder, mas também aprenderem a utilizar a sua “nova forma” de Super Vegeta (e Super Trunks), basicamente os dois com cabelos mais espetados e mais musculosos. Ainda que visualmente observemos somente tais mudanças, o poder de ambos de fato é maior e sem controle, porém, não o suficiente para bater em Perfect Cell. Mais uma maratona de episódios que alongam a luta que se aproxima.

Depois de outros episódios filler, com preenchimento desnecessário sobre o nascimento de Gohan – momento enfadonho ao extremo – finalmente Goku pensa nas esferas do dragão, indo atrás de outro nameki, para ocupar a vaga de Kami Sama. Assim, convoca Dende, amigo de Gohan e Kuririn, para ocupar a vaga. Ainda falando em filler, são mostrados os discípulos de Mister Satan, Piroshikin e Carron que falham em qualquer ajuda contra o vilão. Tudo em volta de Mr Satan faz referência a falsidade e a manipulação midiática, crítica que se tornaria mais evidente na saga Boo.

A luta entre Goku e Cell começa no episódio 177, mas o primeiro golpe só é desferido com 7 minutos (o total do capitulo é de 20 minutos). A batalha contra Cell prometia ser tão ou mais extensa que a de Freeza em Namekusei. A luta termina no episodio 180, mas Cell só tem seu fim mais para frente, no 191. A luta  é interrompida por Goku, e ele desiste por falta de poder para deter o monstro, apontando que Goham poderia derrotá-lo. Tal atitude é reclamada por quase todos os personagens adultos que acusam Goku de ter sido irresponsável – e realmente foi, Gohan só tinha 11 anos – ao colocar seu único filho contra p ser mais poderoso do universo. O argumento de que ele mesmo tinha lutado com 11 anos é invalido. No anime clássico, Goku enfrentou somente inimigos mais comuns, não com potencial de destruir o planeta.

Gohan mostra uma diferença fundamental para seu pai. O garoto não deseja lutar. Não tem gana nem desejo por batalhas como o pai e seus antepassados. Sua motivação para se elevar a novos níveis de poder não surge por raiva, mas por dor. Principalmente ao ver alguém pacifico como ele, o andróide 16, ser pisoteado por Cell unicamente porque o vilão podia matá-lo.

O desencadear do nível Super Sayjin nível 2 (que a essa altura sequer tinha esse nome) é feita de modo natural. A inteligência por trás do roteiro mostra personagens com dilemas diferentes atingindo níveis de poderes extraordinários cada um por sua via, com gravidades e detalhes narrativos diferenciados. A questão envolvendo Gohan só atinge a perfeição por conta da vilania dos Cell Pequeninos.

Durante esse período há muitos flashbacks desnecessários. Entre eles, há um que vale a pena ser visto, que se passa durante o tempo em que pai e filho estavam na  sala do tempo em que Goku percebeu que o herdeiro tinha um poder de luta incomensurável antes mesmo dele se transformar em um SSJ 2. Gohan tem uma expressão e coloração de cabelos muito semelhante ao chamado Gohan Mistico, que só seria descoberto da saga Boo. Isso talvez fosse um sinal do que estaria por vir nos planos de Toryama, ainda que para muitos essa fosse a ultima saga do mangá segundo os supostos desejos do criador. Declarações a parte, parece ser sim uma premonição do que viria.

A luta contra Cell é tão intensa e o poder de Gohan é tamanho que o vilão usa suas forças e expele a número 18, vomitando-a. Gohan teve mais de uma chance para matar o monstro, que involui para sua forma numero dois, e em uma tática desesperada, o inimigo se infla para explodir e Terra e seus habitantes. Mesmo um guerreiro mais sentimental como Gohan é capaz de errar e de agir com preciosismo. ao ponto de seu pai ter que se sacrificar e sacrificar também o Senhor Kaioh.

A volta do vilão é repentina. Sua explicação não é boa, beira o clichê do deus ex machina, com uma interferência maior (ainda que não seja literalmente uma interferência de qualquer ser divino, é claro). Não faz sentido Cell ter retornado e mantido a mesma potência. As células sayajins explicam ele voltar com mais poder do que morreu, graças a regra do Zenkai, mas não explica a evolução para a forma perfeita mesmo sem ter absorvido 18 novamente. O poder supremo do mal parece ter decidido que a batalha estava curta demais, e esse artifício de roteiro tem males terríveis, pois banaliza o sacrifício de Son Goku, tornando-o um simples lacaio em um retorno de um antagonista que sequer percebeu que poderia voltar.

Apesar disso, há contornos dramáticos no final, com Cell acertando o peito de Trunks, praticamente matando-o. Um fato que faz Vegeta revelar seus sentimentos pela versão mais velha de seu filho. Ambos tombam, Cell fere Gohan no braço, o mesmo membro que foi tirado de sua contra parte no OVA – Guerreiros do Futuro. Esse detalhe nos faz perguntar se de certa forma o destino em Dragon Ball não tende a se repetir, já que em ambas versões, Goku está morto, Gohan é a ultima esperança e ainda tem um dos braços incapaz de ser usado como instrumento de ataque.

O modo como Cell é despachado é bem emocionante, mas perde boa parte do impacto após os três episódios repletos de preenchimento que seguem antes da micro saga filler do Torneio do Outro Mundo. Tais capítulos pouco acrescentam, mostram a repetição do arco de Kuririn no inicio da fase pós Freeza,  em que ele é rejeitado por sua amada – aqui 18, e não Maron- além dos pedidos de Shenlong, que agora dá direito a dois desejos, ao invés de um só. Isso não inclui Goku, que já havia sido revivido antes. Dessa forma, retornaram Trunks e demais vitimas, com o antigo herói da saga aceitando a morte, acreditando que sua presença atrai o mal para a Terra. O outro pedido seria feito por Kuririn, que quer que 18 e 17 se tornem humanos, mas o dragão nega o pedido, e depois aceita que possam ser retiradas as bombas que estavam dentro dos robôs, fato que comove a bela hibrida entre humano e máquina. Ainda assim, Chichi fica desolada por ser viúva tão jovem. Por mais chata e fútil que ela se apresente, sempre se dedicou a sua família, e não merecia ficar sem seu par, ainda mais dessa maneira triste.

Há algo errado com o ultimo capitulo que se passa na linha de tempo de Mirai Trunks (esse é o nome utilizado posteriormente a essa saga para designar esta versão do herói), ainda mais se analisarmos que Cell só retorna no tempo porque Trunks mata 17 e 18. Ele adquire esse poder somente após a volta ao passando, reencontrando o próprio Cell. Para enfrentá-lo, decide entrar na sala do tempo com seu pai para, posteriormente, voltar ao futuro, matar os androides e, sabendo que Cell existe, obliterando-o. O vilão só poderia retornar se o heróis tivesse consciência disso tudo anteriormente, fazendo com que essa parte fique confusa e contraditória.

Graficamente a saga de Cell perde muito em qualidade até mesmo em comparação com as sagas anteriores. Apresenta uma uma animação estática demais e que não evolui em quase nada. Em alguns momentos, parece um Motion Picture do mangá, sendo que mesmo o mangá apresenta maior dinamismo se comparado as últimas lutas dessa fase. Ainda assim, a saga dos androides tem bons momentos de roteiro, desafiando até seus próprios clichês, apresentando uma sensação de mortalidade e do impacto das perdas de grandes personagens.

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