[Review] Jornada nas Estrelas – A Série Clássica

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Em 1966 começava a ser exibida na rede de televisão NBC o seriado de ficção científica Jornada nas Estrelas, pensada como uma utopia política de Gene Ronddenberry, que ao contrário de sua irmão temática Star Wars, buscava um paralelo com a realidade, ainda que tivesse no mote das aventuras de James Tiberius Kirk (William Shatner) e sua tripulação, um escapismo fugaz e metafórico, tocando vez por outra no assuntos censurados à época.

Não havia nos anos sessenta uma preocupação tão presente com cronologia, tanto que a primeira exibição do programa foi realizada ignorando o piloto rejeitado pela emissora – A Jaula, ou The Cage, mais tarde incorporado em pedaços a outro episódio especial – e exibindo o que deveria ser o sexto capítulo produzido, chamado de O Sal da Terra, em que explora a visita de Leonard “Bones” McCoy (DeForest Kelley) há um antigo amor do passado que aparenta um semblante para cada pessoa que lhe via. O conceito de brincar com a ótica do homem, utilizando o machismo vigente à época era somente um dos pioneirismos que a série traria para si.

Toda e qualquer discussão sobre conservadorismo não é simplesmente aventada, e sim justificada por contos de ficção científica, que ajudam não só a ambientar o público, mas também a despistar censores. Já nesse início nota-se a extrema canastrice de Shatner, exacerbadamente histriônico , bem como o estilo de artes marciais que pratica.

Os primeiros episódios tem temáticas bem parecidas, com supostos sobreviventes predando a todos. Em Onde Nenhum Homem Jamais Esteve é exibida toda a ideia de Star Trek, ainda que pedaços substanciais do cânone ainda não estejam completamente estabelecidos, como os uniformes dos tripulantes, e claro, a personalidade de Spock (Leonard Nimoy), ainda exibindo bastante emoção e expressões sentimentais. Sulu (George Takei) era da área médica ao invés de piloto, e McCoy não era o líder do Departamento de Saúde, em seu lugar havia o Doutor Piper (Paul Fix). Logo mais, em Inimigo Interior, roteirizado pelo autor de Eu Sou a Lenda, Richard Matheson, Kirk se vê dividido entre seu lado selvagem (malvado) e dócil (bonzinho), e em meio a maniqueísmos e defeitos de sincronização continuísta, o capitão percebe que é preciso equilíbrio em seus esforços para que retorne a sua identidade comum.

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Jornada nas Estrelas era um programa datado, mas também toca em temas importantes, como a sexualidade exacerbada, a despeito de Do Que São Feitas as Mulheres que faz uma desconstrução do ideal da mulher, ainda que este seja mais um exemplo de exposição dos corpos femininos, muitas vezes sem qualquer necessidade que não a de desviar a atenção do orçamento baixo.

O ponto de virada na primeira temporada, levando-se em conta o caráter procedural da mesma, é o primeiro episódio duplo, A Coleção (The Menagerie), onde Spock tem um encontro com seu antigo capitão, Howard Pike (Jeffrey Hunter), que está preso a uma condição imóvel, ferido e paraplégico, graças a um infortúnio, que havia acontecido no primeiro piloto da série. A fidelidade de Spock é posta a prova, aproveitando-se do fato de sua raça ser tão lógica que torna incapaz de mentir, gerando então uma dicotomia em relação ao seu compromisso com Kirk e com seu antigo comandante. Na Corte Marcial onde o vulcano é julgado, passam-se imagens de treze anos anteriores, mostrando a trajetória primária de Star Trek, com uma configuração de tripulação bem diferente da vista em 1966, exceto pela figura do alienígena mestiço.

Ambas as partes são escritas por Rodenberry, sendo possivelmente a contribuição mais notável do criador do programa em termos de argumento. O curioso em relação a figura feminina, é que há uma representatividade maior para mulheres, como com a personagem de Majel Barrett, chamada de Number One, como segunda em comando na nave, enquanto a personificação de Vina (Susan Oliver) mostra uma pessoa obediente, que somente pensa em ser um bom par para o seu homem, a Eva perfeita para esta versão de Adão. Os extraterrestres de Talos IV tem um formato fálico, usando seus poderes telepáticos através de suas cabeças. O desfecho do especial é otimista, mas igualmente perturbador.

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Apesar de mostrar um cenário fantasioso em relação a utópica paz social terrestre, o universo de Star Trek não é pontuado pela política pacífica galáctica. Uma vez que o social terrestre está resolvido, a hora de acirrar ânimos é a bordo de embarcações espaciais, explorando as diferença entre os humanos e outras raças. É em Balanço do Terror (Balance of Terror) que aparecem os primeiros rivais da Federação de planetas, os romulanos, primos ancestrais dos vulcanos, quase sem diferenças físicas ainda nesta encarnação. Neste episódio, o tratado de armistício ainda é mencionado levemente, bem como a zona neutra de tráfego aéreo, aspecto semelhante aos acordos entre povos.

Kahn Nonien Singh acabou por se tornar, no segundo filme, o vilão mais icônico da franquia, mas sua introdução, com um Ricardo Montalban ainda jovial, foi bem discreta e pontual, discutindo a questão do super homem nietzschziano e da tirania que ocorreu durante os anos oitenta e noventa, via ditadores pós-conflito da Segunda Guerra Mundial, claro, de um modo profético, uma vez que Muammar al-Gaddafi e Saddam Hussein ainda não exerciam seus governos autoritários. O modo como o ideário da personagem é construída foge do maniqueísmo comumente atribuído a um vilão, já que em Semente do Espaço (Space Seed), a figura da personagem é carismática e bastante sedutora, como deve ser um grande líder. Todo o arquétipo bem construído quase é posto a perder pela luta de dublês, que evidentemente não tem qualquer semelhança com Shatner e Montalban. O símbolo por trás da personagem seria mais forte, ao ponto de cumprir a última fala de Spock, de como seria curioso retornar aquele planeta algum dia.

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Em tempos de Guerra Fria, onde o conflito era mais psicológico e ideológico do que visceral, Um Gosto de Armageddon (A Taste of Armageddon) faz um interessante paralelo, de um conflito acordado entre dois povos, que não se digladiam para não destruir os próprios recursos, mas que matam seus habitantes, a fim de prosseguir em espécie mas sem baixas em infra-estrutura e tecnologia. A decisão de Kirk neste caso é bastante intervencionista e contradiz a primeira diretriz, mas é bastante justa, ainda que tenha toda a semelhança com o expansionismo imperialista típico dos humanos.

É bem curioso o modo como se retrata o Império Klingon, nesta encarnação, como uma raça belicosa, escravagista e muito malquista diante dos olhos dos confederados, ao contrário a conciliação que seria estabelecida no século seguinte em Jornada nas Estrelas – A Nova Geração. A pouca demonstração de alienígenas, em especial na primeira temporada, é justificada em parte pela missão primária da Enterprise, que era visitar planetas de Classe M, capazes de estabelecer vida humana, por isso, havia tão pouca variação aparente entre as espécies e quando havia contato, precisavam ser extremos, como eram os antagonistas klingons. As dificuldades orçamentarias também ajudam a explicar a exploração da semi-nudez feminina, tão presente nestes anos. O uso do feltro (material barato) e da pele da mulher se popularizou não só graças ao apelo popular, mas também pelo protagonismo da série visto em Kirk/Shatner , que como outro ícone sessentista, James Bond, tinha no galanteio uma de suas características marcantes.

O acréscimo de Gene L. Coon como produtor ajudou a fomentar o cunho  humorístico, em especial nos dois últimos anos, além de acirrar a rivalidade se McCoy e Spock. O segundo ano se permite ousar um pouco mais na confecção de raças extra terrestres, mais diferenciadas visualmente dos humanos. O nome de Deforest Kelley é incluído nos créditos iniciais, e curiosamente os outros coadjuvantes ganham mais espaço, com Uhura (Nichelle Nichols) tendo mais espaço além do simples proceder das comunicações, e Chekov (Walter Koenig) servindo de navegador e stand in do setor de ciências, o que evidentemente causou muito ciúmes em George Takei e seu Sulu, impedido de gravar graças a produção de Os Boinas Verdes, em meio aos preparativos da segunda temporada. As histórias não eram mais tão centradas em Spock, McCoy, Kirk e Scott, ganhavam um pouco mais de destaque para os outros personagens fixos.

Apesar dessa nova diretriz, os produtores escolheram começar a temporada 1967/1968 por Tempo de Loucura (Amok Time), mostrando não só detalhes maiores da vida e rotina dos vulcanos, explicando o método de reprodução denominado de Pon Farr, bem como todo o aspecto visual do planeta dos humanoides olherudos. A luta entre Kirk e Spock foi tão alardeada e tornada como algo sensacional que certamente se tornou um dos momentos mais marcantes do programa, ainda que não seja assim tão sensacional como o burburinho posterior fez crer

Em A Maçã (The Apple), se explora os adoradores de Vaal, uma raça alienígena que vive para adular uma criatura supostamente divina, que gera em seus seguidores uma devoção cega e que os leva a danação, de serem consumidas por uma máquina rudimentar. O roteiro de Max Ehrlich claramente alude a cegueira típica de alguns religiosos extremos, em especial ao cristianismo tanto católico quanto protestante, ainda que tenha referencias também as perseguições da Idade Média. O episódio faria um comentário curioso com dois outros capitulos, Requiem para Matusalem (Requiem For Mathuselah), e depois com Caminho Para o Eden (The Way To Eden), que seriam lançados próximos ao cancelamento do programa, fato que ajudava a mostrar a obsessão de Ronddenberry, fato que o faria pensar em um plot ignorado para o primeiro filme e que foi parcialmente explorada em Star Trek V.

O episódio mais notório da primeira metade da temporada, certamente é A Caminho de Babel (Journey to Babel), com a aproximação de Sarek (Mark Lenard, que retorna em outro papel) e de sua esposa Amanda Grayson (Jane Wyatt), que revelam um pouco das origens de Spock, bem como detalha os conflitos nas relações de raças tão diferentes que compõe a Federação. Telaritas, seres com feições suínas são tratados como pessoas volúveis, dados a discussões gratuitas, enquanto os andorianos são traiçoeiros e de caráter dúbio e dominador.

Além do evidente e interessante imbróglio com os alienígenas, ainda há o cuidado de Shatner em se deixar filmar sem camisa, para afastar os rumores de que estava engordando, já que sempre sobrava um espaço para um pequena pança se projetar naqueles trajes que delineavam as curvas do corpo dos atores. A dificuldade familiar de Spock é explicitada em alguns momentos, desde a chegada do embaixador, até o ato hostil que deixa Sareck a beira da morte.

As dificuldades financeiras faziam até episódios clássicos, como O Herdeiro  (Friday’s Child) soarem menos importantes, pela completa falta de caracterização e maquiagem da parte dos klingons. A batalha por suprimentos travada entre Kirk e Kras (Tige Andrews) pela predileção dos nativos capelanos perde um pouco do sentido graças ao caráter paupérrimo das armas, semelhantes a brinquedos infantis. Uma questão de honra surge, envolvendo a personagem Eleen, vivida por Julie Newmar, a já clássica Mulher Gato do seriado do Batman dos anos 1960, mas a solução em si é muito simples.

É evidente que o foco em Jornada nas Estrelas é na discussão da ciência, humanidade e seus meandros, mas alguns episódios se destacam por fatores externos, como o humor de Problemas aos Pingos (The Troubles With Tribbles), onde é explorada a rivalidade dos humanos com os klingons, pondo em questão uma praga das mais curiosas, com os pingos, ou tribles no original. O “artigo” é vendido por um comerciante picareta de nome Cyrano Jones (Stanley Adams), que o entrega a Uhura, possivelmente sem perceber o mal que faz a ela e a tripulação de sua nave. As criaturas são pequenas bolas felpudas, que fazem um som tranquilizador e que se multiplicam aos montes, a partir de sua alimentação.

Ainda neste capítulo, é mostrada a interação dos tripulantes com o torpor do álcool, com Scott e Chekov, que primeiramente rejeitam as ofensas dos klingons, a respeito do caráter de Kirk, para revidar finalmente ao ouvir impropérios sobre sua nave. Até a disputa pelos suprimentos do Planeta Sherman pelos dois lados distintos do certame é posta no mesmo nível de importância que a exploração das criaturas protótipas e das pragas gremlins. O episódio seria revisitado pelo spin-off Deep Space Nine, em um episódio que continha viagem no tempo.

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O exagero na exploração de dramas e fatos históricos terráqueos nos Planetas de Classe M normalmente irrita, mas se garante bastante curiosa em Um Pedaço da Ação (A Piece of Action), que destaca uma infecção estranha, causada por uma ação externa, com a cultura do planeta sendo ditada por um livro de regras do crime organizado de Chicago, nos tempos áureos de Al Capone. É bem curiosa a atitude de Kirk e Spock em interferir no planeta sem ferir a diretriz primaria, fazendo com que os iotianos entendam um pouco da federação, mas sem sair de seus contextos históricos alienados, passando por uma tênue linha ética.

Em Volta ao Amanhã (Return to Tomorrow), é introduzida a doutora especialista em astrobiologia Ann Mulahl, que apesar de ser do setor de saúde, usa uniformes vermelhos, de operações. A personagem de belas feições capturaria a atenção de James Kirk, por sua beleza e pelo tom de novidade. EM toda a série original, ela é a personagem feminina de maior patente da Frota, o que se torna curioso, já que sua interprete Diana Muldaur retornaria a bordo da Enterprise-D, a encarnação da Nova Geração como a doutora Katherine Pulaski, responsável médica em substituição de Beverly Crusher.

A segunda temporada possui talvez a maior quantidade de episódios clássicos, no entanto termina de modo genérico, aludindo ou a planetas que emulam demais o modo histórico terrestre, ou com viagens temporais ao passado do planeta sede da Enterprise. O terceiro e derradeiro ano começa com O Cérebro de Spock (Spock’s Brain), abrangendo um dos clichês de ficção-científica, que seria a troca de consciência via transferência cerebral de um corpo para o outro, ainda que as consequências vistas no episódio sejam muito mais verossímeis, justificadas e plausíveis em comparação com seus pares. Ao final deste capítulo, McCoy tem de assumir as características de uma inteligência artificial com conhecimento muito maior do que sua limitada mente humana poderia suportar, ao menos em condições comuns. Talvez este aspecto tenha sido uma das justificativas para a premissa de Star Trek III:  À Procura de Spock, servindo de embrião para o elo que o doutor e o Vulcano compartilham nos longas para o cinema.

As restrições orçamentárias seriam utilizadas para estabelecer um plot complicado a princípio, mas que se mostraria interessante em seu resultado final. O Incidente Enterprise (Enterprise Incident) seria marcado por ao menos dois motivos, o primeiro, com a fadiga mental de Kirk, estafado por tanto trabalho ininterrupto, influindo isto na sua postura de capitão sábio, e a interferência dos Romulanos nos caminhos da Federação, cruzando o espaço através de uma nave Klingon, que era ocupada graças a uma parceria entre as raças. O uso do artefato evidentemente só ocorre graças ao preço alto que foi empregado na nave, utilizada até então somente uma vez. A desculpa funciona bem, dando vazão a desdobramentos curiosos, como a transformação de Kirk em Romulano, para se infiltrar na nave, e o flerte da comandante Romulana interpretada por Joeanne Linville e Spock, aludindo a um ardil de suposta traição por parte do alienígena segundo em comando na Enterprise.

A principal diferença entre a Enterprise clássica e qualquer outra embarcação militar é a avidez e curiosidade não necessariamente hostil com possíveis perseguidores, não pressupondo que as intenções daqueles que a cercam sejam obrigatoriamente bélicas, ainda que grande parte desses seja, para todos os efeitos, de abordagem bárbara e agressiva, até por ser a ação um artigo mais fácil de lidar do que aventura pensante.

Mesmo os Klingons são trabalhados em um nível bem embrionário, diferentes não só fisicamente, pelas evidentes dificuldades financeiras do estúdio, mas também pela postura. A faceta de seres mais selvagens e acéfalos, como uma versão sem inteligência dos espartanos ocorreria primeiro nos filmes ocorridos a partir do fim dos anos setenta e das reimaginações em seriados, contando a partir da geração de Picard e companhia. O comportamento é tão distinto que mesmo em meio a disputa por hegemonia da galáxia, os Klingons conseguem entender quando estão sendo manipulados, como em O Dia da Paz (The Day of the Dove), em que o comandante Kang (Michael Ansara) consegue perceber que a trégua é a melhor saída para os opositores e os seus, em mais uma alusão à visão utópica de Ronddenberry sobre as soluções para a Guerra Fria.

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A missão a Enterprise também é a de conduzir eventos diplomáticos, que podem ser tão hostis quanto os momentos de pura ação. Exemplo disso é a figura de Elaan (Frances Nuyen), protagonista de Elaan de Troyius, uma mulher arredia que faz lembrar o mito grego bastante óbvio, mas que também funciona como a inversão de uma questão sexual explorada, com a nobre como uma dominatrix, sendo sua a posição ativa na questão da libido e do cumprimento de quaisquer anseios sexuais.

Questões raciais e de segregação de povos seriam mais abordadas em uma série posterior, focando basicamente na questão Israel e Palestina com uma tênue trégua entre os povos. O embrião deste pensamento utópico é verificado no episódio A Ùltima Batalha (Let That Be Your Last Battlefield), onde duas raças se digladiam basicamente por diferenças físicas entre os povos, que tem suas doas cores invertidas, assemelhando as duas castas a uma condição muito mais próxima do que por exemplo entre Vulcanos e Humanos, raças que se cooperam mutuamente de modo pacífico, levando em conta até suas diferenças. Frank Gorshin, conhecido como Charada no seriado do Batman, interpreta Bele, que mostra a Kirk e Spock a intolerância entre seres tão parecidos, separados por ordem de cores no rosto, pondo-o em conflito direto a Lokai (Lou Antonio), um prisioneiro de seu povo. A confusão e a perseguição entre os povos é completamente sem sentido, e tem paralelos demais com a realidade, resultando em um conflito de 50 mil anos.

Entre os últimos momentos, O Guardião das Nuvens (The Cloudminders) se mostraria um episódio curioso por sua dicotomia, já que a cidade Stratos, que orbita as nuvens seria um lugar onde a violência é erradicada e onde somente se vive de arte e da extração de um mineral que ajudaria a conter uma praga que assola o planeta Merak II. Por trás da aparente calma, se esconde um apartheid, causado pela propagação do vírus entre os Troglitas, que habitam a superfície, e que são vistos pelos mais abastados como pragas separatistas, em uma visão completamente preconceituosa em níveis sociais. A interferência de Kirk é enorme, mostrando (mais uma vez) que a primeira diretriz não pode ser inflexível ao ponto de sobrepujar questões de justiça social, ainda que essa interferência seja bastante discutível em termos éticos.

Somente em 1988 foi exibido na íntegra o primeiro episódio piloto, o não aprovado e capitaneado por Christopher Pike, cujo intérprete Jeffrey Hunter se recusou a  voltar ao seu papel de herói. Nele, se resume todo o ideal que Ronddenberry tinha para a futura franquia, com uma mulher no segundo posto de comando e que seria retirada em versões posteriores, com um alienígena muito mais humanizado e sentimental no Spock de Nimoy, capaz até de rir e com um capitão resignado e inseguro. Pike é bastante diferente de Kirk, é mais maduro, crível e ligado a um espírito aventureiro mais científico do que de ação, característica que seria retomada em Jean Luc Picard. No entanto, a procura por mulheres era bastante parecida, uma vez que o chefe da nave facilmente foi capturado pelos alienígenas Talonianos, em seu ardil, graças as belas feições de Oliver. A discussão filosófica parecia pouco palatável ao grande público, ao menos para as cabeças pensantes da CBS à época. A emissora exigiu um novo piloto, que fosse de mais fácil compreensão.

O último episódio exibido, Intruso (Turnabout Intruder), se baseou em uma história do próprio Ronddenberry, adaptada por Arthur H. Singer. A trama é pessoal e gira em torno da Dra. Janice Lester (Sandra Smith), que foi sua colega na academia e que jamais teve acesso a um comando. Através de uma máquina, ela faz a troca de consciências, que logo tem seu ardil desbaratado. No decorrer do episódio, é engraçado notar a versatilidade de Shatner, que sempre foi uma ator mediano ao misturar trejeitos seus e os de uma mulher.

A Série Clássica é bem diferente de suas continuações, spin-offs e derivados, não só pela época em que se baseavam suas histórias base e tecnologia de captação de imagens, mas também pela presença maior de seu criador e do corpo de roteiristas. Apesar de números atritos que Gene tinha com D.C. Fontana e tantos outros, foi neste seriado o ponto onde a utopia política que reunia elementos socialistas com conceitos de filosofia que iam dos clássicos Platão e Aristóteles, a Arthur Schopenhauer e Friedrich Nietzsche, além de inúmeras referências teatrais de William Shakespeare. O escapismo de Star Trek teria conteúdo, discutiria a sociedade, política, economia, fronteiras regionais e a alma do homem, soando algumas vezes datado, mas sendo preponderantemente poético, caminhando audaciosamente em lugares desconhecidos do cosmo e da discussão da cultura pop.

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