Cinema

[Crítica] Arte, Amor e Ilusão

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Arte Amor e Ilusão

Lançado em maio de 2003, ele é um grande contraponto a quantidade excessiva de romances tanto adolescentes quanto os simplesmente açucarados que tomaram conta das produções americanas durante os anos 90. Ele é adaptado de uma peça de teatro escrita e dirigida pelo próprio Neil Labute, que inclusive já foi interpretada no Brasil. The Shape of Things, ou Arte, Amor e Ilusão, traz o elenco original da peça (Rachel Weisz, Paul Rudd, Frederick Weller e Gretchen Mol) para uma produção de cinema que imita o teatro com grandes tomadas de diálogos que abrem espaço para aqueles quatro atores mostrarem diferentes facetas de seus personagens enquanto a trilha do britânico Elvis Costello ilustra toda a película.

O filme começa com uma mensagem de aviso na música Lovers Walk de Elvis Costello, mas que não está sendo ouvida pelo protagonista. A partir dela acompanhamos Adam (Rudd), um funcionário de um Museu de Artes próximo à faculdade que conhece Evelyn (Weisz), uma estudante que está começando seu mestrado em artes e por algum motivo se interessa pelo jovem completamente desinteressante. Os diálogos entre todos os personagens nos indicam que existe uma passagem de tempo de meses entre muitas das cenas do filme. Vemos isso mais claramente no físico de Rudd, que acaba emagrecendo muito durante essas passagens.

Em todos os arcos dramáticos do filme é a transformação que dirige o espectador a pensar sobre os assuntos debatidos entre o casal de Rudd e Weisz. A insegurança que guia a vida de Adam o deixou com um casulo fixo nas costas, impedindo-o de sair ou de se aproximar de outras pessoas. Evelyn não só o arranca de lá, mas questiona o valor real das coisas. Tanto na arte quando na primeira cena do filme ela picha um pênis na estátua de Fornicelli, na vida de plástico dos seus amigos, na sua moral e em seu medo em relações, que o tornaram na pessoa que ela conheceu.

Como o título nacional sugere, existem algumas discussões sobre arte contemporânea (performances, esculturas conceituais e vídeos), mas que só servem para abrir uma lacuna que só será preenchida ao final da história. Os amigos de Adam, Jenny e Phillip, são os primeiros a questionar a relação instantânea e fora de nexo dos dois, reforçando a falta de algo que pudesse atrair uma mulher à personalidade e aparência do amigo. Seu visual, suas roupas e até sua postura com as pessoas muda por pura influência de Evelyn.

Assim como Hitchcock, guiar o espectador para o desfecho e manipular as cordas que dão vida à trama fazem parte de um excelente método de narrativa que guiam o espectador até o fim do filme. E é dessa manipulação narrativa que surge o ar de pequena joia que o filme possui. Neil LabuteRachel Weisz são dois Hitchcocks trabalhando juntos, até o fim que chega silencioso, chocante, humilhante e terrível.

O diálogo final fala mais do que é um filme do que daqueles personagens, além do momento Encontros e Desencontros (que, apesar de provavelmente não ser referência, foi lançado no mesmo ano). Somos apenas Adams de muitas Evelyns que nos encontram aleatoriamente em nossas casas e nos cinemas, e acredito que é um dos poucos romances que exibe um metacomentário sobre a sétima arte.

O filme traz um contraponto interessante do papel de manipulador ao primeiro filme de Labute, Na Companhia de Homens, o qual o papel de Evelyn era interpretado por Aaron Eckhart e Matt Malloy, e Adam era uma inocente moça interpretada por Stacy Edwards. Não só o papel dos gêneros foram trocados, mas o ponto de vista também. Fica a mensagem que tudo é relativo, transformações são perigosas... E confiar em mulheres também.

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Texto de autoria de Halan Everson.

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