Cinema

[Crítica] Hipócrates (2014)

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Hipócrates 1

Utilizando o nome do filósofo grego, conhecido como pai da medicina, o filme de Tomas Lilti tem um formato diferenciado: Hipócrates mostra uma visão peculiar sobre o trabalho e serviço médico. A história é focada em Benjamin Barois (Vincent Lacoste), um jovem estudante francês que acredita ter um potencial tremendo dentro do ofício. Os quase 120 minutos de duração servem para, aos poucos, desconstruir a idílica ideia sonhadora que o rapaz tem em relação a sua vocação.

Sobre a cabeça de Benjamin recai uma responsabilidade diferente, já que seu pai é dono do hospital em que começa a trabalhar. Apesar de alguns comentários ácidos de seus colegas, não há qualquer favorecimento a ele, graças ao parentesco com o patrão. A realidade explicitada no cotidiano clínico é bem diferente das versões midiáticas de Plantão Médico e House M.D., fazendo referências diretas a este último em uma cena metalinguística na qual um enfermeiro assiste ao seriado e assume que o programa é bem mais interessante do que sua rotina.

O desenrolar da história prima pela monotonia do dia a dia, com poucos momentos de descontração entre pessoas comuns e tediosas, que conseguem em alguns momentos alegrar o ambiente através de piadas fracas e interações repletas de gracinhas típicas dos momentos de sociabilidade movidos a vinho.

O roteiro de Pierre Chosson, Baya Kasmi,Julien Lilti e Thomas Lilti consegue fazer menções importantes, sem necessariamente tornar o tema panfletário. Em meio ao dia comum, há greves por parte de funcionários que trabalham na clínica, demonstrações de pacientes sofrendo com cicatrizes terríveis e, claro, mostras do quão inconsequente pode ser um profissional da saúde, sem tratar essas pessoas como vilões maniqueístas que só possuem defeitos de caráter.

Os 20 minutos finais fazem bifurcar o protagonismo, mostrando um desfecho dramático interessante para Benjamin, além de finalmente dar uma amostra mais certeira e visceral das condições difíceis a que os funcionários são submetidos, os quais precisam lidar com cortes extremos no orçamento básico do hospital, o que afeta a quantidade de recursos de trabalho, bem como comprova o descontentamento dos trabalhadores em receber menos do que o combinado anteriormente.

É curioso o modo como o filme se encerra: com a musica Tell Me Something I Dont Know, de Herman Dune, que tem uma melodia alegre e uma letra que desconstrói o herói clássico, assim como a obra desfaz mitos sobre o proceder médico. Doses de melancolia e obsolescência mostram que a força das circunstâncias também atrapalha o ofício normalmente idolatrado daqueles que fizeram o juramento de Hipócrates.

Filipe Pereira

Filipe Augusto Pereira é Jornalista, Escritor, quer salvar o mundo, desde que não demore muito e é apaixonado por Cinema, Literatura, Mulheres Rock and Roll e Psicanalise, não necessariamente nessa ordem.
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