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Crítica | A Segunda Esposa

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A Segunda Esposa

Chegando no Brasil com quatro anos de atraso, A Segunda Esposa torna possível a discussão de diversos temas atuais pela Turquia moderna: a constante aproximação com o progressismo da Europa e as suas raízes orientais ortodoxas e conservadoras.

Uma jovem turca de 19 anos de um vilarejo no interior se casa com o filho de um casal, mas secretamente se torna a segunda esposa do pai, já que eles se mudam para Viena. Até que ele morre e ela fica perdida no seio daquela família.

O roteiro do diretor austríaco de origem turca Umut Dag em parceria com Petra Ladinigg seguiu a tradição do cinema oriental e escolheu uma narrativa mais bruta por meio de muitas sequências com pouca ligação. A confusão de informações tornou o filme ainda mais interessante e serviu para a premissa, pois o conflito dos temas deixa os turcos muito confusos. Como se modernizar como sociedade ao se aproximar da Europa e manter seus valores árabes conservadores?

Neste sentido, a protagonista Ayse, a tal segunda esposa, tem um papel fundamental na discussão, já que todos os conflitos do filme passam por ela. Uma mulher, que foi vendida pela própria família para se casar com um velho já casado com uma esposa doente, tenta se encontrar em dois mundos que ela pouco conhece, a grande Turquia, representada pela família que mora na cidade grande, e Viena, onde irão viver.

A nova família não a aceita, e ela se sente deslocada deles e da cidade onde vive. Quando o marido morre e ela tenta se afeiçoar a Hasan, descobre que ele é gay, e tem outro envolvimento com o funcionário do supermercado que leva Fatma à loucura e à conclusão do filme. Curiosa é a relação de Fatma, a esposa doente, que acolhe Ayse com amor e afeto, para depois descobrirmos que só o que ela queria era a continuidade da própria família. Ayse se parece mais com uma roupa na máquina de lavar sendo jogada de um lado para o outro até se encontrar e impor a sua vontade perante quem a cerca.

A direção de Umut Dag é interessante, mas poderia ter sido mais bem trabalhada em algumas cenas com os atores e ter refinado mais o enquadramento. O seu forte foi se guiar pelo roteiro e contar uma história interessante.

As atuações não são a parte mais interessante do filme como em uma dramaturgia; elas são ofuscadas pelos temas levantados pelo roteiro. O elenco mediano, que poderia ter elevado o filme em qualidade, deixou a desejar. Begüm Akkaya está perdida como Ayse. O grande destaque é Nihal G. Koldas, que interpretou Fatma, a primeira esposa e guia de Ayse no meio daquela confusão, e Murathan Muslu, que viveu Hasan, seu suposto marido.

A fotografia escura de Carsten Thiele e a edição bruta de Claudia Linzer não acrescentaram muito ao filme quanto deveriam. O departamento de arte também deixou a desejar, talvez pelo visível baixo orçamento da produção.

A Segunda Esposa deve levantar interesse pelos temas e pela discussão em torno dos imigrantes no cenário mundial, associando a recente onda de imigração árabe atingindo a Europa.

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Texto de autoria de Pablo Grilo.

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