Literatura

Resenha | Desejo – Elfriede Jelinek

Compartilhar

desejo-Elfriede-Jelinek

A obediente Gerti é casada com Hermann, diretor de uma fábrica de papel que usa a mulher para satisfazer sua tantalizante obsessão sexual. O filho do casal, ainda uma criança, testemunha com curiosidade perversa os abusos sofridos pela mãe. Está também sob o jugo controlador do pai, por quem é tratado como presa, e revida ao mundo com violência, saboreando a inveja das crianças pobres do bairro.
(fonte: primeira orelha do livro)

Desejo, escrito por Elfriede Jelinek, deu à autora o Nobel de Literatura de 2004. Autora de A pianista - que virou filme pelas mãos de Michael Haneke - ganhou todas as premiações mais importantes de literatura em idioma alemão. Este é o segundo romance da autora publicado no Brasil.

Polêmico, causou certo escândalo ao ser lançado. Há sexo em abundância, em praticamente todas as páginas. Contudo, como adequadamente afirmou a imprensa austríaca quando do lançamento do livro, o texto é antes de mais nada anti-pornográfico. Mesmo descrevendo o sexo com todos os detalhes e todas as palavras possíveis, não há absolutamente nada de erótico nessas cenas. Principalmente porque Jelinek entrelaça a elas associações entre a submissão da mulher - como gênero - e o capitalismo, dando ênfase ao consumismo desenfreado e à condição social dos operários. Quer algo menos sensual que isso?

“As mulheres, enxertadas de esperanças, vivem da lembrança; os homens, entretanto, vivem do momento, que lhes pertence e, se cuidadosamente cultivado, se deixa compor e formar um montinho de tempo, que igualmente lhes pertence.”
(p.23)

O livro estilisticamente é ainda mais difícil de “encaixar”. Trazendo para a realidade literária brasileira, a grosso modo seria possível descrever como sendo uma mistura de Guimarães Rosa - com neologismos e construções inovadoras - e Clarice Lispector - com digressões e fluxos de consciência. Parece estranho. E é mesmo. É difícil de acompanhar a princípio, enquanto a autora alterna entre sexo explícito e crítica social. E, honestamente, não há como se habituar a isso. Talvez tenha sido essa mesma a intenção da autora.

“Incômoda” talvez seja o adjetivo mais suave que se aplica a esta obra degradante, implacável e violenta. Tanto a forma quanto o conteúdo causam um desconforto durante a leitura, que demora a se dissipar mesmo depois de chegar ao fim do livro. Em alguns trechos, é insuportável acompanhar a narrativa, ver o modo como Gerti é subjugada e humilhada pelo marido, sua tentativa de fuga da realidade abrigando-se na bebida alcoólica, a perversão do filho, um pequeno voyeur que se delicia observando a situação. Desconcertante.

-

Texto de autoria de Cristine Tellier.

Vortex Cultural

Um autômato a serviço do site... ou não.
Veja mais posts do Vortex
Compartilhar