Literatura

[Resenha] Lobisomem Sem Barba - Wagner Willian

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lobisomem-sem-barba-wagner-willian-balao-editorialA diversificação estética e o uso de outras artes no projeto narrativo desejam causar ruptura das estruturas tradicionais da literatura e promover um novo conceito em que diferentes ideias dialogam entre si. Com a quebra de estilos formais, surgiram obras que apresentavam estilos múltiplos, intensificando a própria interpretação e modificando a forma da leitura.

Em 1985, nas primeiras edições de Contos Plausíveis de Carlos Drummond de Andrade, uma série de desenhos acompanhava cada um dos contos. Porém, as imagens eram apresentadas de maneira aleatória, nem sempre representando a história que viria a seguir. Era responsabilidade do leitor realizar o jogo de adivinhação entre o texto e seu respectivo desenho.

Um dos exemplos máximos da quebra da linearidade narrativa é o do romance O Jogo da Amarelinha, em que Julio Cortázar permite que os leitores escolham diversos caminhos para a leitura. No Brasil, Luiz Ruffato dialogou, em sua estreia, com um recorte de estilos e vozes em Eles Eram Muito Cavalos, narrando um dia na cidade de São Paulo. Recentemente, a coletânea Meu Nome é Antônio também resulta em uma leitura além da tradicional ao apresentar poemas compostos em guardanapos. Projetos que textualmente ou visualmente buscaram - se não com sucesso - demonstrar a possibilidade de modificar barreiras aparentemente intransponíveis. Obras que demonstram o que a vanguarda do concretismo levou ao extremo com seus poemas e sua arte visual.

Lobisomem Sem Barba, de Wagner Willian, é um híbrido entre narrativas curtas com apelo visual que explicita a intenção da obra. São diversos microcontos dialogando entre si através de imagens, comentários e indicações cinematográficas e musicais. Reconhecendo que o estilo da obra pode ser inédito para muitos, há um prefácio de Xico Sá e outro de Jorge Coli que, além da rasgação de seda natural para o autor, tentam explicar e justificar a importância de uma obra com referenciais diversos.

A princípio, o autor utiliza a estética da composição virtual dos blogs para criar seus textos. Simulando postagens de diversos personagens – tanto aqueles criados pelo autor como outros que dialogam na obra, como a namorada de Superman, Lois Lane, e o monstrengo verde Bruce Banner –, dá-se espaço para que, a partir desses textos, surjam comentários aleatórios, como se um público invisível repercutisse as narrativas.

Diante do senso contemporâneo, é evidente que os contos são breves. Em um mundo acelerado, Willian se vale da velocidade para criar uma página por história, com referências externas e desenhos que intensificam a expressividade narrativa.

As vozes são periféricas, refletindo agonia em textos poéticos mas rebaixados à boca do lixo entre porres e cigarros. Como muitas seleções de contos, há momentos desequilibrados em que histórias e desenhos parecem fechar em si mesmos, sem uma representação aparente de significado.  O que pode também ser uma tática do autor, demonstrando que, dentro do panorama abordado, nem sempre as intenções são claras.

Mesmo quando os contos resultam em histórias de conteúdo estranho, as imagens que os completam são ricas e vão além da própria imagem. Muitas vezes os desenhos são fotografados no ambiente do autor, dando-nos uma sensação de quebra do espaço criado pelo texto, como se o leitor também estivesse na gama de personagens. Além disso, cada texto contém uma referência cinematográfica ou musical, demonstrando a intenção de compor uma obra que não só dialoga com diversos formatos como também deixa com o leitor a possibilidade de ir além.

Composta neste formato de texto, imagem e referências, a obra é arriscada pela quebra do tradicional. Um risco que pode afastar os leitores que não gostam da multiplicidade, mas ao mesmo tempo pode aproximar aqueles que buscam uma experiência além da composição ordenada de frases.

O conceito estético visual é apurado, em uma edição bem composta pela Balão Editorial, para representar uma obra de bolso, quase marginalizada, como se devesse ser lida em breves intervalos entre bebidas, tragos e outros momentos de euforia.

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Thiago Augusto Corrêa

Apreciador de cinema, literatura, quadrinhos e música. Formado em Letras, escritor e metido a sabichão.
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