Quadrinhos

Resenha | Giovaníssima

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Quando Nelson Rodrigues ditou, na famosa citação do gênio brasileiro, que “toda nudez será castigada”, muitos levaram a sério sem saber o mal que estavam fazendo a eles mesmos. Mas na época dos nudes, sites picantes, e aplicativos de “encontros”, quem ainda se importa com esse castigo? Muitos e é por isso que Giovaníssima veio para acabar de vez com os que ainda resistem a libertação sexual, e assim arrastar a todos para esse microcosmo dos prazeres mundanos de se revirar os olhos, cuja punição pode ser muito mais gostosa do que Rodrigues já cogitou. Bem-vindos a dimensão de Giovanna Casotto, a ilustradora italiana que leva até o mais sisudo dos marmanjos a uivar com o simples desenho do pé feminino, da boca vermelha a salivar, e de outras partes que exclamam um desejo sobre-humano de serem deliciosamente degustadas.

Se as lolitas de Milo Manara transbordam uma sensualidade acidental, as mulheres de Giovanna conhecem muito bem o seu poder de sedução. Assim, suas histórias expõem, sem pudor algum e absoluto refinamento gráfico (seus traços e a escolha precisa das cores são visualmente orgásticos), o quanto de malícia pode existir numa figura feminina dona de si e pronta para o êxtase. Não, elas não são apenas femme fatales: elas são tudo o que elas se permitem Ser, Obter, e Sentir. Arquétipos da libertação sexual e do rompimento da hipocrisia que rege a maioria das pessoas e seus relacionamentos. Pode-se afirmar que as mulheres de Giovanna aplicam o feminismo na entrega da carne, no gozar da vida, na aventura da libertinagem que, ao homem, quase nunca é condenada pela sociedade, mas que à mulher apedrejam há milênios.

Em Giovaníssima, temos dez contos eróticos recheados de sarcasmo, ora flertando com uma assassina de aluguel, ora nos convidando a uma tarde de puro tesão na praia. É o jogo de se brincar com os regozijos que tantos afogam, mas que agora se tornam uma experiência ultra realista para ninguém botar defeito. Se ao leitor desavisado tudo isso é pornografia, talvez um delírio vulgar com ares de fantasia sexual traduzida em quadrinhos, a arte publicada no Brasil pela editora Veneta (para maiores de 18 anos) serve para explorar, na mais elegante das excitações visuais, a força irresistível e triunfante de uma sexualidade feminina sem amarras para irromper e se encarnar, sempre com a boca bem cheia e lábios bem encharcados, entre quatro paredes efervescentes. Por que se podar? Se as donas de casas têm medo de ser feliz, aqui elas temem o tédio.

Douglas Olive

Cinéfilo formado em publicidade e iniciante com "Os Aristogatas", que assistia 5 vezes por dia na infância, e que agora começa a querer fazer seus próprios filmes. Devo estar indo longe demais.
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