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Resenha | Sandman: Teatro do Mistério - O Tarântula

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Sandman - Teatro do Mistério - capa

A primeira personagem da DC Comics a ganhar a alcunha de Sandman foi Wesley Dodds na Era de Ouro. Um homem sem poderes, que fabricava um gás sintético indutor do sono, única arma de defesa além dos próprios punhos. Para proteger-se dos efeitos do sonífero, utilizava uma máscara de gás, um sobretudo e um chapéu, estes últimos formando um uniforme elegante. Membro da Sociedade da Justiça, esteve presente em diversas histórias na época da Segunda Guerra, uma era dos quadrinhos considerada simples e aventureira.

Quando Neil Gaiman foi convidado a trazer este personagem para uma nova geração, o escritor tinha outra ideia em mente. Um deus que transitava no plano terrestre mas que vivia em outro lugar, junto com outras personagens celestiais. Como ponto de intersecção entre um Sandman e outro, a máscara e a alcunha de Wesley Dodds seriam uma consequência da época em que Sonho foi aprisionado em um ritual de magia. Mesmo enfraquecido, teve forças para induzir sonhos para Dodds compor a personagem (O primeiro arco da grande obra de Gaiman se inicia com Sonho aprisionado). Sandman, o perpétuo, era um grande sucesso quando, em 1993, Matt Wagner e Guy Davis assinaram para o selo Vertigo uma nova revista do antigo protagonista.

Sandman: Teatro do Mistério retoma a personagem da Era de Ouro mas modifica suas estruturas narrativas. As tramas leves e simples dão espaço para uma visão mais adulta e real dos anos 30 nos Estados Unidos, década suja, corrupta e fonte inesgotável de produções noir, tanto nos cinemas como em romances e quadrinhos. No excelente prefácio da primeira edição lançada pela Panini Comics, Dave Marsh define as diferenças básicas entre os Sandman de eras anteriores. Personagens com a mesma essência vivendo em mundos diferentes, um mais colorido e outro mais obscuro.

A primeira nova história desta personagem, intitulada O Tarântula, envolve o leitor em uma série de desaparecimentos de jovens adolescentes e a dificuldade da polícia em encontrá-las. Não sendo um herói grandioso como os notáveis famosos do estúdio, a figura de Wesley Dodds apresenta-se na trama tanto quanto o seu alterego, ou mais. A composição da personagem e os traços físicos fogem do natural padrão escultural de heróis: o senhor do sono utiliza óculos, é levemente gordinho e não aparenta possuir apuro natural e perfeito de dedução criminosa ou de um implacável vigilante. Possui o senso de justiça e a vontade de utilizar seus recursos para fazer o bem, apenas. Assim, ajuda a investigar o sumiço dessas garotas.

Outro diferencial mantido nesta recriação é a ausência de um personagem masculino como coadjuvante. Quem fundamenta a parceria com o herói é Dian Belmont, filha de um dos juízes do local e interesse amoroso de Dodds. A personagem, de acordo com o prefácio, futuramente descobre a identidade do herói e, juntos, prosseguem na luta contra o crime, algo semelhante com a parceria de The Spirit e Ellen Dolan, criados por Will Eisner. Uma atitude que retira da figura feminina a passividade de um alvo delicado a ser salvo, inserindo-a diretamente na ação.

A trama equilibra-se bem entre os alteregos da personagem central, a ambientação decadente da América e o suspense centrado neste arco que trata os referidos sequestros de jovens adolescentes. Os traços de Davis permitem uma maior imersão no ambiente: composto com muitas hachuras e rabiscos, dialoga com a intenção de um mundo sujo, oscilante entre uma dura realidade e o onírico.

A edição foi lançada em capa dura pela Panini Comics e tem os costumeiros rascunhos como material extra. Trata-se de uma excelente obra que merece ser continuada no país como série de encadernados.

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Thiago Augusto Corrêa

Apreciador de cinema, literatura, quadrinhos e música. Formado em Letras, escritor e metido a sabichão.
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