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Review | Lovecraft Country – 1ª Temporada

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Há não muito tempo atrás os canais HBO apresentavam em suas series tramas muito bem elaboradas, acompanhadas de elencos diferenciados, incluindo não só uma boa equipe de produção e direção, mas também um grupo de atores robusto e com estrelas do cinema fazendo um ou dois papéis. Essa fama se solidificou com Família Soprano, A Sete Palmos, Roma entre outras, e com o tempo, produções que no começo eram elogiadas, foram perdendo fôlego, como Game of Thrones, Westworld e True Blood.

Uma das novas apostas da emissora é a produtora e showrunner Misha Green, que tem pouco experiência na televisão, e que resolveu adaptar o livro Território Lovecraft, de Matt Ruff, trazendo a luz Lovecraft Country, uma historia que reúne elementos realistas e referências a literatura pulp, quadrinhos e a contos de terror.

Evidentemente que a maior parte das referências dentro dessa temporada são aos contos psicodélicos de H. P. Lovecraft, inclusive colocando o racismo galopante do autor como elemento da  causa do terror que os personagens perseguem. Já no piloto se tem uma sequencia sensacional, onde o jovem veterano de guerra Atticus ‘Tic’ Freeman tem uma visão/sonho, que reúne elementos de livros clássicos de H.G.Wells, Julio Verne com lendas do esporte como o jogador de Baseball Jackie Robinson. Neste ínterim, o personagem Jonathan Majors - soberbo aliás, em expressividade – demonstra seus gostos culturais, além de traumas oriundos da guerra da Coréia, e ajudam a estabelecer também seus receios ao voltar a sua pátria, já que a época da série, nos anos 1950, a segregação racial era o norte do modo de vida americano. Além de introduzir o personagem, também se estabelece o que a série proporcionará visualmente ao público.

Tic fala que historias são como as pessoas, não precisam ser perfeitas para gostar delas. Claro que a intenção é colocar em perspectivas as narrativas boas dos autores (no caso, racistas como era Lovecraft), e claro, fazer um comentário sobre a efervescência política da época, nas brigas entre capitalistas e socialistas, mas de certa forma, isso acaba sendo também um comentário a respeito das fragilidades do roteiro, que faz muitas concessões e apela demais para a suspensão de descrença, e não por conta dos eventos fantásticos da serie, afinal, esses são esperados, mas sim porque algumas regras são facilmente quebradas e dobradas, enquanto outras se mantém firme.

Apesar dessa problemática, a maioria dos dez episódios tem mais aspectos positivos que negativos. Os efeitos especiais são bem legais guardadas as ressalvas de ser essa uma série televisiva, claro, a abordagem de cada episodio brinca com um gênero diferente dentro do escopo de ficção cientifica, terror e da aventura e essa sacada muito de Green beira o genial. Além disso, o elenco está afiadíssimo, não só com Majors, mas também com Jurnee Smollett que vive a co-protagonista Letitia, com Abbey Lee, que apresenta muito mais camadas que seus personagens anteriores de Mad Max: Estrada da Fúria e  outros filmes, até Jamie Chung, que apesar de ser mais carismática que boa atriz consegue apresentar um bom papel, além dos veteranos (e ótimos) Michael Kenneth Williams, Jamie Neumann, Courtney B. Vance e Aunjanue Ellis que tem cada um bons momentos em tela.

Uma das forças das séries antigas do canal, morava no vasto grupo de coadjuvantes, que produziam historias paralelas que variavam o nível de interesse do espectador. Roma era muito assim, Boardwalk Empire idem, e neste ponto, Lovecraft Country resgata essa sensação. Ruby, a irmã de Letitia vivida por Wunmi Mosaku tem um arco ótimo, que conversa com as recentes reclamações e movimentos sociais populares no Estados Unidos, como o Black Lives Matter. Em alguns pontos, as conclusões dela são mostradas com base no didatismo explicito, mas isso claramente não incomoda tanto quanto a mera descrição dos fatos faz parecer. Exceção ao destino final da personagem, todo seu arco é muito bem explorado e exemplificado, além de ser bem amarrado a trama principal, discutindo bem questões de aceitação e ascensão do negro em um mundo dominado por brancos e resgate de identidade.

Lovecraft se baseou em Salém para fazer seus contos, mas o horror do seriado de Green se baseia em questões de segregação, da violência dos intolerantes, e ainda tempera tudo isso com o choque de gerações entre os personagens, além de outras questões de aceitação dos diferentes, ligados também a sexualidade, e até um desenvolvimento da temática vista no recente vencedor do Oscar Green Book: O Guia, ainda que aqui, tudo tenha ainda mais urgência do que filme de Peter Farrelly. Toda a narrativa da série prima pela pressa, para o bem e para o mal, é como se o mundo estivesse prestes a acabar, mesmo que a historia seja muito contida em si e em seus cenários.

A não confirmação de uma possível segunda temporada é, ao menos por enquanto, um alento, uma vez que até aqui a historia do livro se esgotou, e materiais semelhantes como Handmaid’s Tale pioraram e muito após temporadas que não adaptam mais seu livro de origem, como foi pós segunda temporada. A chance de se esticar demais uma premissa interessante porém esgotada faz torcer para que os produtores e manda chuvas da emissora optem pela satisfação do que a série já apresentou até aqui, e como a audiência não foi tão estrondosa, seria natural não renovar, de fato.

Apesar das muitas conveniências e incongruências, sobretudo quando se aborda a magia, Lovecraft Country consegue trazer a luz temas bastante potentes e caros a atualidade, reunindo a sua formula uma trilha sonora repleta de Hip Hop como foi recentemente com a também série da HBO Watchmen de Lindelof, além de ser um aceno aos fãs de literatura especulativa, pela quantidade enorme de referências que faz, e também por abordar de forma tão criativa e direta as temáticas espinhosas que sugere.

Filipe Pereira

Filipe Augusto Pereira é Jornalista, Escritor, quer salvar o mundo, desde que não demore muito e é apaixonado por Cinema, Literatura, Mulheres Rock and Roll e Psicanalise, não necessariamente nessa ordem.
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