Crítica | ABC da Greve

Leon Hirzman é um dos diretores que fundamentou um dos grandes momentos do cinema brasileiro. Quando terminou de filmar Eles Não Usam Black Tie, Hirzman começou a fazer um documentário que permaneceu inacabado até depois de sua morte, em 1987. Em noventa, com ajuda de restauradores, e de algumas imagens inéditas, que substituíram as que foram perdidas nos negativos, vinha a luz finalmente ABC da Greve, que mostra em detalhes o cotidiano dos metalúrgicos grevistas, nos anos setenta na região paulista do ABC — Santo Andre, São Bernardo e São Caetano — núcleo este que obviamente estava bastante relacionada com o longa ficcional protagonizado por Gianfrancesco Guarnieri.

Em um momento bastante singelo do filme, um dos peões grevistas, sujeito simples e calvo, conversa com uma autoridade militar fardada, praticamente implorando para que ele e seus companheiros não fossem presos, beirando o absurdo pensarmos em trabalhadores terem de pedir autorização para reclamar por seus direitos.

Apesar de já lidar com a imagem do líder Luiz Inácio da Silva, o Lula, como um dos centros do movimento grevista do ABC, é só com 24 minutos de filme que Hirzman apresenta um perfil do sujeito, utilizando o segundo terço do filme para falar de sua vida pessoal e como foi sua trajetória rumo a presidência do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. Lula grita, em cima do palanque, para que os grevistas tenham cuidado, evitem andarem sozinhos durante e depois dos atos, sugerindo que esses vão para suas casas assim que acabar o manifesto. Apesar da liderança popular que tem, já é possível verificar o perfil conciliador de Lula, muito distante de qualquer traço revolucionário em suas ações ou que evoque qualquer enfrentamento para além do comumente estabelecido em movimentos grevistas. Todo o discurso é sim de conciliação.

O final do filme indica o quão o Estado é benevolente com as empresas, que concederam algumas das exigências dos grevistas — não todas, aliás bem longe disso — e ainda tiveram esses prejuízos bancados pelo caixa federal, em uma manobra que de certa forma, explica muito da motivação da ditadura empresarial-militar — algo que pode ser visto em outros filmes desta época como Pra Frente, Brasil e Cidadão Boilesen. Para variar, o Estado à direita favorece o empresariado em detrimento dos direitos dos menos abastados.

Hirzman jamais conseguiu terminar seu filme, e é irônico como o retrato de um movimento popular como o que ele pinta, termina sem uma vitória categórica, como havia sido anunciado no início da revolta, no entanto, o resultado colhido tem bastante semelhanças com as a forma de governar em um futuro próximo dos objetos que foram analisados em ABC da Greve, onde o que preponderava, era a tentativa de equilibrar a inclusão dos mais necessitados, sem infringir diretamente nos interesses dos poderosos. É evidente que essa análise ainda não daria para ser feita em 1990 no lançamento do filme, mas é curioso como a obra já dispõe de elementos que profetizam boa parte do modus operandi de Lula enquanto líder, denotando inclusive qualidades e defeitos que ajudariam a montar o quadro politico complexo que ocorre no Brasil nessa segunda metade de década de 2010.

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