Crítica | Batman: Silêncio

Os Novos 52 “revolucionaram” (entre mutas aspas, há de se dizer) a linha de quadrinhos mensais de DC Comics. Entre sucessos e insucessos, muita coisa já foi retomada e descontinuada, mas ao menos no setor de animação lançada direto para o mercado de home vídeo, os filmes em longa-metragem seguem, adaptando sagas também anteriores ao Reboot. É o caso de Silêncio, revista que tinha o roteiro de Jeph Loeb e arte de Jim Lee, que estava no início de  sua carreira na editora, e o resultado do longa homônimo de Justin Copeland é um pouco diferente da HQ.

O roteiro original de Silêncio não é grandioso, apesar de ser pretensioso. É uma historia cheia de reviravoltas, que envolve muitos vilões do Morcego, que resgata um personagem do passado de Bruce, Thomas Elliot, pessoa essa que não fazia parte do panteão e passado do personagem, ao mesmo tempo em que um misterioso vilão, chamado Silêncio/Hush aparece, e ninguém sabe quem poderia ser, apesar da evidente suspeita recair sobre o único personagem novo.

O diferencial positivo do Gibi era a arte de Jim Lee, que aquela altura, não tinha os mesmos vícios e burocracia artística que tem hoje. O problema é que o traço dessas animações novas são feitas muito sob a orientação de como o artista sul-coreano conduz seus atuais trabalhos. Até a sensualidade das personagens femininas, que na revista são vistas como pin-ups que, apesar de objetificadas ainda possuem alguma classe, aqui só são apresentadas com decotes imensos, ou pernas a mostra. O fato dos personagens parecerem mais bonecos do que humanos estilizados faz essa sensualidade forçada não funcionar muito, o que faz tudo soar estranho, e muito artificial.

O filme tenta ser diferente. Há muitos personagens coadjuvantes do universo do Morcego,  entre vilões e aliados, mas claramente não há o mesmo peso que uma saga grande exigiria, e piora muito a situação se comparada ao produto original. Essa versão mais atualizada, e posta dentro do contexto do pós-reboot recente faz muitos dos momentos homéricos da revista original se perderem, como a possibilidade de Silêncio ser Jason Todd ressuscitado, pois a historia se passa antes de Batman e o Capuz Vermelho, inclusive antes do arco das HQs que deram origem a animação citada.

Não há nem de longe o mesmo impacto, assim como a participação de Clark Kent, Lois Lane e Superman. Fica tudo um pouco deslocado, e estranho. É incrível como os recentes A Morte do Superman e Reino do Superman conseguiram ser resinificados e funcionam, mesmo com as mudanças, isso talvez se dê por serem filmes de Sam Liu, que neste Silêncio, só supervisiona os storyboards, para que ele seja fiel visualmente. Talvez se o filme tivesse seu trato próprio, haveria mais sentido em sua abordagem, pois ele só parece genérico.

Tecnicamente o longa tem outros tantos problemas. o traço dos personagens está demasiadamente minimalistas, há erros crassos nas feições e expressões de heróis e vilões, o desenho é muito suave, e em cenas que não possuem closes fica ainda mais gritante a falta de cuidado. Se pensar em cronologia dessas animações, o produto de Copeland também soa incoerente, não bate com boa parte do que já foi apresentado nas animações recentes.

O desfecho do filme é bem diferente do original, não só na questão já levantada sobre Jason Todd, mas também com a origem e identidade do vilão. As mudanças parecem muito apressadas, e sem necessidade de ser tão diferentes assim do original, além disso, há também no roteiro de Ernie Altbacker uma necessidade tola de trazer um romance bem artificial para a trama, fato que rivaliza até com o mistério de quem seria Silêncio, é tudo tão forçado que faz pensar que talvez isso tenha sido colocado exatamente para afastar rumores sobre a homossexualidade do Morcego, assunto esse tão ultrapassado em 2019 que sinceramente nem precisava mais ser abordado, e é desse jeito morno que Batman: Silêncio é apresentado, como um das menos inspiradas animações dessa nova leva.

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