Crítica | Inferninho

Inferninho é o novo filme de Guto Parente e Pedro Diógenes, e começa seu causo justamente por seu nome, que varia a alcunha entre a questão de inferno pessoal e o nome popular que se dá a pequenos bordeis temáticos, onde por sua vez, ocorrem pequenos shows variados e categorizados com “transformismos” ( termo esse dito aqui em atenção cronológica do palavra inferninho). O longa mostra o ambiente do bar cearense, comandado pela trans nipônica Deusimar (Yuri Yamamoto), que recebe a chegada de seu antigo amado, Jarbas (Démick Lopes), também conhecido como Marinheiro.

O filme não dá sua história de maneira fácil ou didática, os sonhos e motivações dos personagens são dados bem aos poucos, assim como são mostrados os números musicais do Pé Sujo. As performances variam entre o mambembe e o vagabundo, com pessoas se esgoelando fora do ritmo, acompanhadas de uma música eletrônica que não faz muito sentido com o que se profere pelo cantor ou cantora, mesmo levando em conta a estética do tecno brega. No entanto, isso em momento nenhum soa pejorativo, ao contrário, ajuda a dar charme e personalidade não só as pessoas, mas também ao lugar.

Em determinado momento, Deusimar sonha que está com seu par, viajando por um chroma key dos mais caricatos, e esse tom dá um pouco da dimensão dos pensamentos das pessoas que ali estão, gente que se enxerga como fracassada, que não vê muitas perspectivas de futuro, mas que ainda assim seguem sendo quem são, sem medo ou vergonha de serem da parte excluída e mal vista da sociedade mesmo morando no interior. Por esses motivos, a comparação com filmes como Paraíso Perdido parecem mal encaixados e reducionistas, há sim uma boa influência do cinema de Rogerio Sganzerla e do recente Ralé, de Helena Ignez, especialmente no modo de tratar os personagens e no espírito que eles transmitem ao público.

Já o visual de alguns dos entes que o filme exibe  remete a clássicos da ficção cientifica e estética noir, além de pegar emprestado um pouco do caráter do western para o cenário de seu sertão, e o esmo onde o Inferninho se encontra. Os personagens fazem lembrar a literatura de Phillip K. Dick e Frank Herbert, reúne semelhanças narrativas com os filmes Vingador do Futuro, Soylent Green (ou No Mundo de 2020), Blade Runner, com Duna de David Lynch e com o nunca realizado Duna de Alejandro Jodorowsky, além de lembrar também A Montanha Sagrada, e sua versão do faroeste norte-americano, El Topo.

Inferninho poetiza a melancolia e inevitabilidade do destino, mostra as curvas da vida de forma bem cruel, sem deixar assuntos pesados como assédio de lado, mostrando essas pessoas se defendendo como podem, de subornos, ameaças e violência física. Sua abordagem prima por uma urgência e um desespero por fechar ciclos, e começar novos, e tem em Deusimar o maior símbolo disto, como líder de um movimento único que pensa que ser o maior símbolo daquele micro universo talvez não faça de sua existência a coisa mais plena do mundo. O fato e ser composto por personagens diferenciados faz do filme um espécime com uma identidade bem corajosa, e ainda conte´m um final que extrapola as versões que esses personagens tem em mente sobre quem eles são, permitindo que novos ciclos possam ocorrer e se repetir, caso esses queiram, tornando toda a lisergia típica dos filmes de David Cronenberg e David Lynch bem viva neste.

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