Crítica | Paraíso Perdido

Se valendo de uma estética cafona, evocando o brega como delimitador artístico do cinema e demais artes brasileiras, Paraíso Perdido começa com uma cortina roxa, de tonalidade gritante sendo aberta, aparecendo ali Erasmo Carlos, de peruca, interpretando José, um dos muitos cantores que fazem participação no palco da casa de show que dá nome ao filme. O senhor é na verdade o gerente do espaço, que dá espaço para a sua família cantar por lá e para outros artistas que não tem onde se exibir.

Odair, um policial vivido por Lee Taylor aparece por lá e após quase prender um dos que lá se exibem, decide aceitar o pedido de José para fazer a segurança de Ímã (Jaloo), uma cantora trans que sempre sofre com ataques homofóbicos. Aos poucos, os universos de cada um dos personagens periféricos são revelados, e em cada detalhe se nota uma enorme dramaticidade e complexidade em cada detalhe de suas intimidades, familiares e pessoais.

O filme valoriza demais a arte musical, mostrando os sonhos dos personagens em conseguir algum notoriedade apesar de suas rotinas extremamente simples, normalmente embaladas por músicas de Reginaldo Rossi, Zé Ramalho e outros expoentes da cancioneiro popular, fugindo normalmente do eixo sul-sudeste.

O fato de dar voz a pessoas que normalmente não tem é bastante válido, embora o filme careça de uma discussão ou mensagem maior, é um filme contemplativo sobre como a vida se desenrola lentamente. O nome da casa de show serve como alusão a utopia e Oasis que o paraíso perdido representa, pois ali qualquer pessoa pode ser o que quiser, pode relacionar ou ser o que quiser, onde os sonhos são limitados apenas pela vontade da própria pessoa.

Paraíso Perdido tem uma direção artística muito forte e funciona como um bom exemplar de filme coral bastante competente, o fato de não ter um protagonista único fortifica a ideia de que é um filme de comunidade, lembrando em espírito o filme de Tavinho Teixeira Sol Alegria, embora ouse bem menos que esse, e tenha mais um espírito e caráter de filme de cabaré do que o filme político do diretor paraibano, sendo uma ode da diretora Monique Gardenberg a liberdade que deveria acompanhar o amor.

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