[Crítica] Jonas

Jonas 1

Estreante na feitoria de longas-metragens, após um bom período como produtora e assistente de direção, Lê Politi apresenta seu Jonas, um filme que remonta elementos da fábula cristã em uma nova roupagem, mais atual, brasileira e claro, sexual. O roteiro de Politi e Élcio Verçosa tem por base a antiquada questão do amor impossível entre pessoas de classes distintas, usando o personagem-título, filho de empregada, como possibilidade romântica da jovem patroa.

Jonas é vivido por Jesuíta Barbosa, ator que está cada vez mais à vontade no cenário de cinema mainstream brasileiro. O drama paulista flerta levemente com a luta de classes, artifício que serve, claro, de despiste. Curioso é notar que o personagem de Jesuíta permanece com os olhos arregalados o tempo inteiro, talvez por erro da condução, mas que, diante de todo o cenário tragicômico da fita, torna-se até charmoso, abrindo inclusive a possibilidade de este comportamento ser algo premonitório.

Depois do encontro com Branca (Laura Neiva), e após uma série de flertes, Jonas se vê em meio a uma situação absurda, envolvendo a famosa participação do rapper Criolo (em um dos papéis mais hilariantes do filme), fato que muda completamente o cenário e, claro, as atitudes dos homens. Além da óbvia comparação com a história do profeta foragido bíblico, há um bocado de Pierrot e Colombina no drama mostrado em tela, além de claras alusões ao roteiro de Quentin Tarantino, Amor à Queima-Roupa.

No último terço há uma clara subida de carisma dos personagens, especialmente de Ariclenes Barroso, que vive Berro, um dos traficantes locais que protagoniza a melhor cena junto a Ana Cecília, quando em ameaça destila um diálogo engraçadíssimo, carregado de espirituosidade. Outro personagem que rouba para si o protagonismo é o jovem Jander, vivido pelo ator mirim Luam Marques, que consegue causar nos espectadores uma sensação de absoluta simpatia e interesse, especialmente por suas tiradas e verborragia pouco observadas nas crianças. Os diálogos bem urdidos fazem lembrar as ótimas conversas presentes nos scripts de Braulio Mantovani em Tropa de Elite e Cidade de Deus, não na gravidade, evidentemente, mas no aspecto de usar frases de efeito curiosas.

O desfecho de Jonas e dos seus é semelhante ao que aconteceu em toda a sua vida, usando o carnaval paulista e a vida suburbana como background, o que faz toda a tragédia ganhar até mais significado. De fato o argumento não é um primor, mas é certamente compensado pelo tom e pelas atuações dos coadjuvantes, que ofuscam o desempenho pouco convincente de Neiva enquanto protagonista feminina, resultando Jonas em um filme divertido, semelhante aos clássicos de Grande Otelo e Mazzaropi, não em formato, mas bastante em magnetismo humorístico.