[Crítica] Kong: A Ilha da Caveira

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King Kong foi imaginado originalmente em 1933, clássico pro seus efeitos visuais e pela história poderosa de amor entre uma fera gigantesca e sua musa. A relação entre doçura e ferocidade animalesca de um gorila gigante, tão assustado quanto brutal, tão perigoso quanto amoroso. A cena no topo do Empire States Build provavelmente é uma das mais famosas do cinema, tão perfeita é sua criação. Anos após e diversos filmes revisitaram sua história, em versões mais ou menos fiéis, incluindo uma versão com o intuito de praticamente reproduzir o original, e lindamente filmada por Peter Jackson.

Kong: A Ilha da Caveira se afasta de praticamente todos seus anteriores ao não só focar em um trecho bastante específico da mitologia do herói gorila, que é seu reinado na ilha da caveira, como em uma época bastante específica, que é o período da Guerra do Vietnã. A datação é inclusive usada como justificativa para o achado da ilha fantástica, coberta por tempestades magníficas e quase inacessível. Também faz parte de algo maior, já anunciado pela Warner e Legendary, parte de um universo todo de monstros gigantes que inclui o Godzilla de 2014. Percebe-se alguma ressonância nos dois filmes, principalmente na intenção de expor uma visão ecológica desses animais fantásticos.

Eu sou a morte, o destruidor de mundos

A mensagem é aquela, mais bem trabalhada em Godzilla que em King Kong, de que a natureza é poderosa e age independente de nossa pequenez. Como se fôssemos insetos, ela passa por nós todos os anos, seja com tsunamis, furacões, terremotos devastadores, erupções vulcânicas e toda sorte de intempéries. A natureza nos ignora, e somos resultado dessa displicência. A nós e nossa falsa sensação de magnitude, nosso reinado de sal, nosso olhar de folha e pensamento de raiz, olhando de cima todo o mundo enquanto pensamos de maneira primitiva e irracional. Nosso sabor pela guerra, a visão de um inimigo à espreita em cada esquina e a necessidade de destruir uns aos outros e tudo aquilo que nos cerca. O ser humano como um vírus pronto para ser expurgado. Mas os anticorpos não são os monstros protagonistas, seja King Kong ou Godzilla. Eles são os reis benevolentes que em sua não necessidade de compaixão, demonstram benevolência. King Kong é nosso herói, o rei leal e piedoso, atento ao sofrimento e pressionado na amargura da solidão de ser único. Único tal qual é cada um de nós. Um universo inteiro em uma casca de noz. O problema sempre está em impor este universo particular ao outro e assim achar que se é o único universo.

O antagonismo é representado em duas frentes, os lagartos da caveira, animais gigantes de design impiedoso, com falsos olhos demoníacos, e o general interpretado por Samuel L. Jackson. Ambos representam a face da morte, seja a morte da seleção natural, seja aquela imposta por nossa seleção artificial e empáfia na escolha sobre quem vive e quem morre. Parafraseando o brilhante cientista Oppenheimer, chefe de pesquisas do projeto Manhattan, que desenvolveu as primeiras bombas nucleares e todo o seu conceito, ao citar Bhagavad Gita diante do sucesso do projeto. A citação refere-se à cena onde Vishnu ao persuadir o príncipe a cumprir seu dever, para pressiona-lo ergue-se em sua forma com múltiplos braços:

“Agora eu tornei-me a Morte, a destruidora de mundos”.

Kong: A Ilha da Caveira pode ser definido de diversas formas, mas dificilmente será enquadrado em algo, seja gênero ou tom. A forma como melhor se define este filme é como algo genuinamente único, mesmo que nem sempre bom. É um filme pensadamente híbrido,usando diversas referências da cultura pop de forma natural e poderosa. Estrelas ninjas nas mãos de gorilas, samurais, bom humor, non sense, quebras de expectativa que surpreendem com competência e ousadia, diversas homenagens à clássicos do cinema como Apocalipse Now, uma cafonice linda e elegante, Tom Hiddlestom com uma espada só por que ele fica lindo na cena. Tudo está lá, e a dinâmica na mudança de tom do filme acontece na maioria das vezes de forma orgânica.

Falta, porém, personagens que fossem além de peças para o roteiro. Ao menos seus protagonistas, pois apesar de Brie Larson destacar-se em sua interpretação e entrega de uma heroína, que em outros tempos mocinha pronta para ser salva, falta um pouco mais de elaboração e tempo de tela para que seja possível identifica-la como o eixo da história de amor entre vida e natureza, coisa que fica subentendida por repetidamente o filme olhar em volta a partir da visão de sua câmera, delicada e atenta as belezas ao redor, garantindo À ela uma sabedoria anti-destruição.

A beleza do filme emociona diversas vezes, e é talvez um dos filmes mais bonitos feitos por Hollywood nos últimos anos, pareado com Mad Max: Estrada da Fúria. O filme esmera-se em fazer de cada cena uma pintura, sejam nas poses ensaiadas e estereotipadas de suas personagens, seja na forma como filma a destruição como um misto de beleza e sadismo.

Diante de tanta beleza e ousadia, torna-se difícil não se esforçar pra amar o filme. Porém sua montagem repetidamente confunde a ordem dos acontecimentos e apressa o passo da história; há uma necessidade de alcançar check points de quem irá morrer agora que, apesar de surpreender, tornam as mortes e vidas dos personagens um pouco descartáveis fazendo com que esqueçamos quem ainda está vivo e quem não. Algumas de suas cenas parecem trechos de um filme melhor do que este que vemos montado, e isso somado à grande quantidade de personagens relevantes e a baixa densidade de suas elaborações, em alguns momentos fica difícil se engajar no ritmo que o filme tenta impor. Um filme necessário pela forma como enxerga o mito do King Kong e a forma como enxerga entretenimento, de maneira artística e elegante, Kong: A Ilha da Caveira é um bela obra de arte, mas que eventualmente se esvazia e transborda em sua grandeza, desperdiçando parte daquilo que poderia ser.

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