Crítica | O Barco

Petrus Cairy é um operário de um cinema muito particular, cuja temática mistura uma abordagem delicada e onírica com um caráter fantástico, e em O Barco o que se vê é esse caráter fantasioso se debruçando sobre uma paisagem ribeirinha, levando em conta a mitologia típica do interior do Ceará para estabelecer uma mitologia que bebe de muitas referencias mas sem ser refém destas.

Petrus  se utiliza de sua terra, o Ceará para narrar o seu conto. O ponto de partida é uma mulher de uma comunidade de pescadores que tem 26 filhos, chamada Esmerina (Veronica Cavalcanti), cada um começando o nome por uma das letras do alfabeto. Com poderes premonitórios, ela intui que um barco chegará e toda a comunidade dali terá suas vidas e rotinas alteradas com essa “pequena” mudança. O roteiro é baseado também em um conto literário, curto, de três páginas apenas, de autoria de Carlos Emilio Correia Lima.

No barco que se aporta nas margens do rio, sai uma mulher, muito bonita, e que habita os sonhos de alguns dos cidadãos que lá ficam, com uma maquiagem forte, semelhante a de uma gueixa, que faz cantos líricos e a capela mirando. Ana é interpretada por Samya de Lavor e é uma mulher sem perspectivas, que tem receio de morrer e se presta sofrer humilhações diversas, praticando um ato que claramente ela não quer fazer a fim de não perecer. O desespero por não ter perspectivas é muito bem traduzido em tela, isso sem explicitar qualquer manifestação carnal ou violência física. O domínio de linguagem que a obra traduz é realmente único.

Cariry traz a luz uma obra que novamente, como foi em Clarisse, inspirações literárias muito fortes, se vê muito do realismo fantástico de Gabriel Garcia Marquez e tons de terror de Edgar Allan Poe e H. P. Lovecraft, embora essa referências não sejam tão explicitas ou exageradas. Quase não há nada explicito dentro da historia, aliás, a maior parte do caráter do filme mora na sugestão de temas e de abordagens e isso torna a experiência muito rica.

O Barco tem um identidade própria e é mais um libelo do universo fantástico que Cariry criou em seus filmes. A simplicidade em contar seu drama é absurdo e o realizador surpreende pela sofisticação de linguagem que emprega, formatando um filme que harmoniza delicadeza e agressividade como sentimentos e sensações complementares, que tem como cola uma linha guia poética sobre a chegada de uma mulher que vem do mar, que perverte a ideia mitológica das sereias invertendo o papel de presa e predador em alguns momentos, conseguindo retornar ao status quo sempre que precisa e fazendo toda essa movimentação soar genuína.

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