[Crítica] O Lar das Crianças Peculiares

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O Lar das Crianças Peculiares é o nome da adaptação cinematográfica do livro de Ransom Riggs, mas também serve em perfeição como adjetivação à filmografia recente de seu diretor Tim Burton, que coleciona fracassos de críticas em meio a poucos sucessos de qualidade indiscutível, como foi com a excelente animação em longa Frankenweenie. Não à toa, este último filme citado era um retorno às origens, como também o objeto analisado, que mistura elementos de A Fantástica Fábrica de Chocolate no visual colorido, e Edward Mãos de Tesoura ao exibir um ideário gótico e repleto de criaturas anormais e simpáticas.

A história é contada a partir da visão de Jake, interpretado pelo mesmo Asa Buterfield que fez A Invenção de Hugo Cabret. Seu personagem é bastante parecido com o visto no filme de Martin Scorsese, mostrando um garoto excluído socialmente e com sérios problemas psicológicos. A única pessoa que tem por hábito conversar francamente com o menino, é seu avô Abe (Terence Stamp), que é um homem já muito idoso e portador de demência. O medo do rapaz logo vai de encontro ao infortúnio de seu avô, com o receio de cair no mesmo problema de saúde pelo qual passa seu antigo mentor.

O grande truque da história, que é baseada no livro O Orfanato da Srta. Peregrine Para Crianças Peculiares, é o de estabelecer uma dubiedade entre o argumento de loucura propriamente dita e o mundo novo a qual Jake é convidado a entrar. Variando entre a crença nas ultimas palavras de seu avô e o receio de estar ficando louco, ele viaja com seu pai, Franklin Portman (Chris O’Dowd), para o País de Gales, onde é apresentado as mesmas criaturas fantásticas narradas nas historias infantis estranhas que seu parente contava. A persona do pai aliás é uma face polêmica, já que é um homem claramente ausente e ainda assim preocupado, muito crítico a figura de Abe por também ter sido um pai que mantinha distância da família, repetindo assim o ciclo de erros ainda que por uma via bem diferente da geração anterior.

É a partir desse mote que Burton pode soltar sua imaginação estranha para construir personagens que variam entre um CGI muito bem feito e técnicas de stop motion maravilhosamente bem conduzidas, sendo este o fator mais elogiável do longa metragem. Os personagens periféricos são críveis, apesar de suas habilidades estranhas, e carismáticas cada um ao seu jeito. Há pouco tempo de tela para cada um deles, mas é fácil estabelecer qual é o drama de cada um e as motivações. O destaque maior vai para duas personagens femininas, a primeira é Miss Alma LeFay Perigrine (Eva Green), que varia entre emoções fortes e bem interpretadas e excentricidades bem exageradas, e claro, a mocinha, Emma (Ella Purnell), uma moça graciosa que arrebata a atenção tanto do protagonista quanto do público quase que instantaneamente.

A mitologia em torno do cenário fantástico e das regras daquele universo particular soam um pouco confusas, mas logo se tornam naturais para o público, apesar de algumas baboseiras fantasiosas e erros crassos de congruência. O roteiro de Jane Goldman sofre de uma irregularidade atroz, aliás praxe nos filmes de Burton (mesmo os bons), já que tem um final como uma solução um pouco fácil na escolha entre nutrir a história de amor em detrimento da completa falta de preocupação do herói com seus familiares, exceção claro ao seu avô. No fim, as jornadas dos dois homens do clã se repetem, mostrando que o destino tem de a seguir o mesmo fluxo sempre.

Dadas expectativas em relação ao filme, O Lar das Crianças Peculiares é o melhor filme live action de Tim Burton em anos, superando em muito inclusive Grandes Olhos, esbarrando somente em Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas. Talvez este seja um início (ainda que tímido) do realizador em tentar resgatar um cinema com menos maneirismos, iguais as suas primeiras produções, sendo menos ambicioso e preso a trucagens bobas e em exibir seus amigos e mais preocupado em mostrar um filme coeso e interessante, ao menos para o nicho buscado.