Crítica | O Processo

Durante a época do impeachment de Dilma Roussef, que culminou na sua saída do cargo de presidente da república, aconteceu uma mobilização de cineastas, que se propuseram a usar suas câmeras para denunciar o que esses acreditavam ser um golpe. Anna Muylaert (Que Horas Ela Volta? e Mãe Só Há Uma), Petra Costa (Elena e Olmo e a Gaivota) e Douglas Duarte (Personal Che) foram três desses, além é claro de Maria Augusta Ramos, que na trilogia Justiça, Juizo e Morro dos Prazeres, já havia denunciado como o judiciário funciona de maneira parcial, e em O Processo, o enfoque é em uma classe que normalmente tem seus privilégios muito respeitados, ainda que obviamente haja um tratamento diferente para os partidários do PT, segundo o próprio filme.

O modo que Ramos escolheu para fazer seu filme foi reunir videotapes da TV Senado e TV Câmara, com momentos inéditos, gravadas por si, acompanhando algumas figuras políticas do Partido dos Trabalhadores, em especial o senador do Rio de Janeiro Lindbergh Farias, Gleisi Hoffman, do senado paranaense e José Eduardo Cardozo, ex-advogado geral da União e responsável pela defesa da presidenta. O filme detalha bem a parte final do processo de desgaste com que o Legislativo fez com o segundo mandato de Dilma, culminando na votação dos deputados e senadores pelo impeachment de Dilma. A sensação de impotência ocorre principalmente quando a votação vai ao senado, onde os próprios documentados assumem que estão ali por um esforço político, e não por esperança de que haverá reversão da pena.

O filme anterior de Maria foi Futuro Junho, onde a diretora acompanha manifestantes pelos meados da Copa do Mundo de 2014, sediada no Brasil. Lá, grande parte das reclamações era em direção ao governo que Dilma fez após os oito anos de Lula no poder, o que se torna até irônico vendo o que ela retrata neste O Processo, e de certa forma, Futuro Junho denuncia um dos erros mais crassos dessa gestão, que foi o tratamento às manifestações populares, inclusive sancionando a fatídica lei anti-terrorismo. De qualquer forma, esse certamente é o menos pessoal dos filmes recentes de Ramos, ainda que acompanhe alguns personagens, o principal alvo disso é tratado à distância e o que se estuda é um conjunto de pessoas e não uma só.

O filme tem um ritmo muito frenético, e faz as mais de duas horas de duração parecerem até menos. A grande questão é que, para quem viveu essa transformação política do país e acompanhou de perto todo o julgamento, tem uma conexão emocional ao assistir o filme, uma vez que as discussões na câmara e no senado são carregadas de demonstrações de que se trata de um jogo de cartas marcadas.

Desde que foi exibido em um festival de cinema em Berlim, o documentário tem sido acusado de ser tendencioso e condescendente com o governo do PT, e na verdade é mostrado em tela até algumas reflexões sobre a crise do partido. Na fala de Gilberto Carvalho, um dos ex ministros de Dilma, se diz que o partido foi passivo demais, e que os governos Lula e de sua sucessora deveriam ter contra-atacado as “perseguições” midiáticas que ocorreram. Aponta também que foi no primeiro mandato de Lula que mais se fechou rádios comunitárias ao redor do Brasil. Para ele, uma boa alternativa a isso seria o governo imitar o que Getúlio Vargas fez, criando para si um jornal, podendo ser outro ator influente na narrativa da mídia que serve de oposição.

O Processo acerta muito ao registrar um momento histórico do Brasil, e não tem medo de escolher um lado, uma vez que considera arbitrária toda a atitude contra a ala progressista da política.

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