Crítica | Os Bons Companheiros

Os Bons Companheiros é um filme americano de 1990. Qualquer um pode afirmar com a razão de Deus, e a calma de um monge, que poucos filmes nos últimos trinta anos atingiram a diversão frenética que Martin Scorsese nos proporcionou sem dó, entre mafiosos e assassinos dos mais inescrupulosos e metidos, mandando a gente esquecer a inquebrável moral familiar de um O Poderoso Chefão, ou a visão épica de Sergio Leone em Era Uma Vez na América. Tempos passados. Aqui, o lixo é revirado, pimenta é adicionada de todas as formas e o sangue jorra com o sadismo que envergonharia os mestres que vieram antes, entregando o tom dos grandes filmes policiais da história do Cinema e que, daqui pra frente, seria fatalmente renovado. A vivacidade, a força e a coragem modernas de Os Bons Companheiros (e Pulp Fiction) ganhou o mainstream de forma inesperada, deixando muita gente de perna bamba e renovando muitos conceitos que ainda não se tornaram banais na poluída e irrefreável cultura pop do século XXI.

Scorsese ama ficar à beira do vulgar, do sádico, e é esse elemento em abundância que torna seu Goodfellas diferente de todos os seus outros clássicos, até hoje. Sempre no limiar da sua típica astúcia cruel com uma realidade torturante, a visão do artista para com homens e mulheres de espírito fraudulento e sociopata não cansa um segundo; simplesmente arrebatadora. Uma energia que já tínhamos sentido (e tentado seguir) antes em Depois de Horas, e Touro Indomável, mas que aqui alcança um nível de plenitude invejável. Filmando a história de um garoto branco de classe baixa, que cresce incorporando a lógica de uma vida mafiosa e orgulhoso por isso, mergulhado no poder e nos privilégios reinantes que esse caminho oferece (enquanto tudo está bem), Scorsese parece já ter revirado as intempéries e lados positivos dessa trama tantas vezes que apenas nos apresenta a melhor versão possível desse conto sobre o apogeu e a desconstrução de uma vida baseada em traições, e golpes. Essa é a sensação com Os Bons Companheiros: Um triunfo infilmável oriundo da Hollywood dos anos 90.

E quem seriam esses companheiros a prova de bala? Representações de toda a filmografia de Scorsese, é óbvio, mas acima de tudo, esses caras que fazem executar seus velhos amigos e familiares pra se dar bem são os grandes ícones da violência que o diretor aqui cresceu com eles em Little Italy, famoso e violento bairro de Nova York, e que por algum motivo enveredou para os ramos do Cinema ao invés do tráfico de drogas – o que provavelmente já teria custado a sua vida. No jogo de agressividade e truculência interpessoal que Robert De Niro e Joe Pesci participam, não há quarto para a honestidade, não há espaço para as relações saudáveis que “pessoas normais” cultivam, muito menos para o arrependimento descansar. É a quebra de valores – total. Todos são um poço de culpa, e mergulhando a fundo nesse abismo ético e moral com graça e realismo impagáveis, Scorsese criou um cânone para sua própria carreira.

É incrível ver grandes diretores mais contemporâneos como James Gray basear suas próprias produções na perspectiva do garoto nova-iorquino crescido que, em Os Bons Companheiros, expurgou seus demônios entregando uma fábula irresistível de violência e imoralidade basilar. O poder aqui é outro, já tinha sido descentralizado, e nasce de uma América profundamente sem vergonha, sem escrúpulos e cheia de lobos dos mais sorridentes – e sem um pingo de saudosismo. “Os valores mudaram!”, exclama o filme a todo momento. “Os valores mudaram!”, e tudo bem. Rindo dessa transformação, afinal, eis a fábula para maiores que melhor abraçou a realidade dos fatos ao gargalhar na cara do tradicionalismo da família Corleone. Engraçado como Francis Ford Coppola voltou, também nos anos 90, com a terceira parte de O Poderoso Chefão, fechando a saga e o glamour mitológico que retratou no mundo do crime. Mas os tempos já eram outros, e Coppola não entendeu. A palavra Respeito já havia saído do dicionário. Desgastou. Ninguém mais sabia o que era isso, e com Cassino e O Lobo de Wall Street vindo em seguida, sabe-se que ninguém mais queria saber.

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