Crítica | Pantera Negra

Filmes de super-herói é uma classe de cinema que evoluiu de um subgênero para praticamente um gênero, em especial após o ingresso da Marvel nas adaptações mais recentes de suas obras. Depois do que aconteceu em Blade: O Caçador de VampirosX-Men: O Filme e as continuações das duas sagas, o que se viu eram filmes que cresciam em investimento e em foco no publico não-nerd, com histórias que remetiam aos quadrinhos mas que tinham uma abordagem descontraída e divertida. Pantera Negra não foge à essa regra, ousa pouco, mas onde se aventura, acaba se saindo muito bem.

O filme de Ryan Coogler se mune de arcos de histórias mais recentes do personagem vivido por Chadwick Boseman, não tanto em estrutura narrativa, mas sim em espírito. Ao contrário das primeiras versões do Pantera Negra, há uma enorme valorização do país onde T’Challa é soberano, sendo Wakanda uma nação próspera, que se utiliza de tecnologias que o restante do mundo não possuí e amplo desenvolvimento social, ainda que essas questões não sejam conhecidas pelo mundo externo. O fato disso não ser compartilhado com outras civilizações, especialmente no que diz respeito as nações subdesenvolvidas, é muito bem discutida no filme, em especial na motivação do vilão.

O roteiro de Coogler e Joe Robert Cole é esquemático, mas não tanto quanto os de Dr. Estranho, Homem Formiga e Homem-Aranha: De Volta ao Lar, esse definitivamente não é um Homem de Ferro do John Favreau com protagonista negro. Os temas discutidos além de atuais, remetem a questões já denunciadas há tempos e conversa principalmente com toda a verve dos discursos de grupos de rap, por exemplo, como a quantidade exorbitante de crianças negras que crescem sem seus pais por conta de tragédias e as dificuldades que um jovem negro e morador do gueto tem de conviver com o poder paralelo do tráfico, e isso tudo se funde com a trilha sonora, repleta de canções que envolvem a cultura hip hop.

Apesar dele ser um produto enlatado, e que não consegue fugir muito dos seus clichês, ele serve muito bem na função de desconstruir mitos e paradigmas hollywoodianos sobre qual é a identidade das pessoas que habitam a África. Os rituais de passagem da realeza são mostrados em detalhes bonitos, com o elenco principal e de apoio dançando com roupas coloridas e típicas, fazendo lembrar até boa parte das vestimentas dos rituais de religiões afro-brasileiras, como Candomblé e a Umbanda.

Da parte do elenco, Boseman não compromete e consegue ir bem. Já a Nakia de Lupita Nyong’o é a personagem mais complexa e bem trabalhada, conseguindo reunir em si dois arquétipos diferentes, que de certa forma, espelham um pouco de T’Challa e Killmonger, de forma equilibrada e inteligente, unindo bem os ideais distintos. Danai Gurira e Daniel Kaluuya quando são exigidos mostram uma boa desenvoltura, embora o segundo merecesse mais tempo de tela e Letitia Wright que faz a irmã do novo rei também tem suas piadas bastante afiadas. O elenco mais velho, com Forest Whitaker e Angela Bassett também acerta na maior dos momentos, o destaque negativo é Michael B. Jordan, que apesar de ter um plano de fundo com problemas reais e ser um personagem implacável, sua interpretação por vezes soa bidimensional, e incapaz de expressar toda a raiva que carrega por ter sido rejeitado por aqueles que deveriam tê-lo acolhido. Ao final, ele ainda tem uma possibilidade de melhorar isso, mas o texto não colabora, se tornando mais um vilão bobo e sem sentido no universo cinematográfico da Marvel.

As cenas pós-créditos envolvem interações entre wakandiano e o mundo exterior, e em todas as sequências eles aparecem como personagens soberanos, jamais de cabeça baixa e essa representação é muito poderosa e simbólica, por que praticamente tudo o que Coogler fez nesse Pantera Negra, remete a isso: quão positivo para uma criança ou jovem negro ter na cultura pop uma representação positiva e protagonista a respeito de quem ele é. Obviamente que é ingênuo acreditar que a partir daí acontecerá uma revolução e que todo o mundo se livrará dos seus preconceitos raciais, mas ainda assim é um avanço interessante dentro da indústria de cinema americana.

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