Crítica | Sem Medo da Morte

O detetive de modos rudes Harry Callahan sempre teve suas aventuras pautadas em outros produtos da cultura pop que faziam sucesso na época em que seus filmes iriam estrear no cinema mainstream, e em Medo da Morte antes mesmo da introdução de seu astro, é mostrado uma situação capciosa, com uma mulher atraente, pedindo carona, fruto de um óbvio despiste golposo, servindo de isca para as ações intempestivas de um grupo terrorista.

Dirty Harry (Clint Eastwood) é introduzido como de costume, após o mote que o fará se mover, tendo de resgatarem refém de um malfeitor genérico, resolvendo a situação do modo mais truculento possível. Mesmo com a repetição de elementos, nota-se uma interessante e charmosa abordagem da estilo de vida dos anos setenta, especialmente na bela trilha sonora, repleta do som de metais do jazz, fatores que ajudam a datar ainda mais o protagonista/anti herói em uma estética que de tão enérgica, beira o fascismo, resultando em uma busca por justiça a qualquer custo.

O universo em que habita Dirty Harry é amoral como era a atualidade em meio a libertação sexual, e isso se demonstra em dois pontos chaves, o primeiro, anedótico, se dá quando em meio a uma perseguição o inspetor mal encarado “invade” o set de filmagem de um filme pornô, onde ocorre a gravação de uma cena de sexo grupal. Certamente tal aspecto jocoso se deu pela afeição do diretor James Fargo ao tema, lembrado especialmente em Doido Para Brigar, Louco Pra Amar, onde o tom escrachado era ainda mais evidente.

O outro fator, mais importante e simbólico, é o acréscimo da nova parceira do personagem principal, a detetive Kate Moore (Tyne Daly), que substitui seu antigo assecla, recentemente morto. Um novo conjunto de nuances deveria ser despertado, como a existência de movimentos como o feminismo, crescente em meio a revolução sexual que se instaurava, mas ainda invisível aos olhos conservadores de muitos homens, inclusive de Callahan, mas o que se nota é empáfia comum ao macho brucutu que despreza a mulher, unicamente por ela ser “inapta” a um trabalho tão bruto quanto este, ao menos na ideia retrograda e conservadora vigente na época.

O roteiro tem alguns problemas sérios, como o de seguir com alguns estereótipos fálicos, como a associação do negro a violência, ainda que o racismo velado seja um pouco quebrado graças a figura interpretada por Albert Popwell (que já havia participado dos dois filmes anteriores, com cenas menores) chamada Mustapha, uma liderança em meio ao submundo criminal que trabalha aqui como informante de Harry e chega a vestir a máscara de mentor em determinados pontos da trama.  A quantidade de vozes diferentes e que antes eram ignoradas  ganham espaço e não ocorrem à toa, e sim por pressão de seu tempo, já que não há qualquer reflexão em tais temas, somente a exposição delas.

O modo violento com o qual Dirty Harry age piora demais. Seus atos incluem até o uso de uma bazuca, para acertar apenas um homem, fato que serviria de inspiração para o Paul Kersey de Charles Bronson nas fatídicas continuações de Desejo de Matar. A terceira aventura do homem que empunha a Magnum 44 serve de parâmetro para o que se tornariam as franquias de ação no futuro, cada vez mais violentas e banais nos filmes subsequentes.

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