Crítica | Suburbicon: Bem-Vindos Ao Paraíso

Em sua sexta incursão por detrás da câmeras em um longa-metragem, George Clooney se reúne a dois roteiristas de peso, Joel e Ethan Coen, e ao parceiro Grant Heslov (Caçadores de Obras-Primas, Tudo Pelo Poder, Boa Noite e Boa Sorte) para uma narrativa de humor negro situada em 1959, em um subúrbio que reflete o sonho americano.

Suburbicon: Bem Vindos Ao Paraíso se inicia como um anuncio antigo, informando sobre esse local quase idílico em que é possível viver com os mesmos confortos de uma cidade grande, sem os problemas enfrentados por grandes metrópoles. É neste local que residem os Lodge, uma família tradicional que após sofrer uma invasão por assaltantes, destroem a imagem de um grupo perfeito cedendo a vingança, chantagem e traição.

Escrito na década de 80 pelos Irmãos Coen, dois anos após o lançamento de Gosto de Sangue em 1984, o roteiro foi desengavetado por Clooney, além de ter sido alterado com novas subtramas, como a presença da primeira família negra no bairro, um evento baseado em um fato real que culminou em violência e agressão contra a família.  Em pouco tempo de exibição, é possível perceber o estilo narrativo dos irmãos, a crítica estabelecida sobre a falsa perfeição da sociedade americana e as consequências de um crime que destroem a família, revelando as camadas podres por debaixo da pintura. A conhecida comédia de erros tão bem definida no clássico Fargo – Uma Comédia de Erros.

A reescrita do antigo roteiro com acréscimos de subtramas para encorpá-lo é um feito visível na tela. A história envolvendo a família negra é mal aproveitada, funcionando mais como um pano de fundo mostrando as tensões da época do que mais uma denúncia contra o falso moralismo americano. Enquanto a trama central parece esconder inicialmente a índole dos personagens, como se o público não soubesse se tratar de uma trama crítica. Ao evitar abordar a família como um grupo corrupto, salvo o pequeno garoto Nicky, o filme perde tempo excessivo decompondo o pai de família. Se desde o início ele fosse desenvolvido como um homem imoral, a crítica poderia ser mais eficiente.

O universo estabelecido em cena sobre um bairro idílico é funcional, a paranoia e o preconceito envolvendo a família de negros é perceptível como se o bairro sob a grama aparada e os sorrisos representasse um mundo as avessas. Matt Damon e Juliane Moore dão um pouco mais de cor há um roteiro mal desenvolvido, bem como o coadjuvante Oscar Isaac brilha em suas únicas duas cenas. Porém, nada parece suficiente para causar incômodo nem estabelecer uma crítica profunda como era a intenção inicial.

A ideia de Clooney em restaurar um antigo roteiro dos Coen é interessante e seria bem representativo como crítica se sua trama não parecesse desequilibrada. Como uma comédia de erros, a própria execução da trama se tornou também um erro. Suburbicon se destaca apenas por poucos bons momentos, lembrando-nos que tanto o diretor quanto os roteiristas já estiveram em melhor forma.

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