Crítica | Tomb Raider: A Origem

Desde os anos noventa há um esforço de Hollywood em conseguir adaptar uma versão cinematográfica de jogos de videogame. Mortal Kombat, Street Fighter: A Batalha Final, Double Dragon e Super Mario Bros. são só alguns dos que falharam antes. A personagem Lara Croft já havia protagonizado dois filmes, que ajudaram a tornar Angelina Jolie uma estrela, ainda que bastante discutíveis do ponto de vista crítico. Quando se pensou em um reboot da personagem nos cinemas, a escolha óbvia foi aproxima-la das novas versões da aventureira.

Tomb Raider: A Origem tenta ser isso, além de também abraçar um arquétipo feminino mais moderno, com uma protagonista forte, e que não precisa fazer caras e bocas ou andar de um lado para o outro em trajes sumários. Sua intérprete, Alicia Vikander, é uma mulher bonita mas que possui um corpo atlético, e não apenas curvilíneo, como acontecia anteriormente.

O diretor norueguês Roar Uthaug faz seu primeiro trabalho nos Estados Unidos, e os problemas disso passam por duas situações fundamentais, sendo uma o péssimo roteiro que tem em mãos — repleto de conveniências, coincidências e explicações que tratam o espectador como bobo — e a segunda se dá nas sequências de ação, prejudicadas por serem apresentadas em situações onde a escuridão prevalece. Os efeitos especiais tem uma resolução bastante confusa. Há muitos momentos onde se abusa de cenas com névoa ou fumaça, até mesmo em momentos em alto mar, tornando tudo ainda mais confuso.

Geneva Robertson-Dworet é creditada como roteirista do filme, então se imagina que as tramas absurdas passaram por seu crivo. O roteiro tem uma quantidade de repetições envolvendo situações ou recorrência de clichês bobos que faz preocupar, já que ela é responsável pelo roteiro dos futuros Sherlock Holmes 3, Capitã Marvel e Dungeons & Dragons. Lara não convence nem como aventureira em início de carreira e também não cumpre o papel de heroína inspiradora e autossuficiente, coisa que, apesar de todos os pecados de seus dois filmes, Jolie conseguia entregar.

Os personagens periféricos não tem qualquer tridimensionalidade, a única pessoa que tem complexidade é Lara. Os vilões são genéricos, mesmo Walton Goggins que vive Mathias Vogel, um homem ganancioso e que possui uma ligação com o pai da heroína; Richard, que por sua vez é interpretado por Dominic West, igualmente insosso. Os dois personagens disputam para ver quem é capaz de soltar um maior número de frases de efeito e clichês típicos do cinema de ação. De todas as coincidências e conveniências, o que mais irrita é o modo como o filme trata o espectador. Lara literalmente fala tudo o que faz, como se estivesse em um tutorial de jogo pré-escolar ou em um filme dublado antigo, chegando ao cúmulo de verbalizar que amarelo mesclado com azul dá verde, em uma cena que tenta inserir os quebra-cabeças existentes no jogo dentro do filme.

A tentativa de emplacar uma franquia através de ganchos mostrados no fim do filme além de não funcionar soa extremamente confuso, já que não há qualquer justificativa para esses momentos no desenvolvimento do filme ao longo de quase duas horas de exibição, que inclusive aparentam ser ainda mais longo do que realmente é, dada a morosidade da trama. Tomb Raider: A Origem está longe de ser desastroso como se esperava, sendo até divertido em alguns poucos momentos, mas os problemas de sua narrativa são gritantes e as escolhas narrativas dos roteiristas e do diretor tornam seu produto final enfadonho, pueril e descartável.

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